Thursday, August 20, 2009

Queda livre

Passei comigo mesma anos inteiros em busca de uma força capaz de me arrancar de mim, e depois vir comigo. Há tempos, confessei-lhe o desejo que tinha de encontrar alguém assim, que me trouxesse finalmente a capacidade de amar para sempre a mesma pessoa. E então eu pude me apaixonar desvairadamente a ponto de precisar desocupar partes de mim para caber você. Eu tinha certeza que era você. E ainda tenho.

Mas a sua certeza só veio muito tempo depois. E muito tempo depois constatei: Não era sonho esse mundo sem chão, ainda que eu pudesse voar. A realidade veio aos poucos, como as lágrimas que caiam sobre o nosso lençol.

Ainda sem chão, hoje sou um corpo em queda livre. Não há dúvidas do que me espera, mas ainda assim não me canso de esperar.

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Monday, June 16, 2008

(DES)CONTEXTO

De um jeito ou de outro, são todos iguais. E adormecem com o mesmo som impertubável de uma quase paz absoluta. Mas não há ausência que me dê sossego nem silêncio que me emudeça. Quando mais na vida haverá tranquilidade sem a expectativa? Faça os cálculos. Veja que a soma dos ímpares dão sempre resultados mais atraentes. Então diminua, some de novo. Multiplique-se. Calcule a probabilidade de um futuro melhor.
Porque o quase fim é ainda pior que o fim de fato.
E eu já nem sei mais que gosto tem o meu desejo.

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Thursday, April 24, 2008

Perdida

Como uma agulha no meio do palheiro. Daquelas bem fininhas, que, de tão velhas, já quase não reluzem. Minha vida anda morna assim mesmo. Busco uma pessoa que não existe e tento encontra-la sempre, seja na fila pra pagar o almoço, no ônibus ou no elevador. É só olhar pra mim que eu já traço um perfil, imagino qual seria o restaurante preferido dele, se ele aceitaria ter 2 filhos e me amar até que a morte nos separe. Tá confirmado, eu fiquei louca. Lembra das migalhas que os ex-eternos-pseudo-apaixonados faziam questão de me empanturrar? Hoje me dão náuseas.

Eu fiquei 2 anos ensaiando um Adeus lindo e dramático, digno de filme Hollywoodiano,  para todas as minhas paixões, e me esqueci que sem elas, os sonhos se perdem e a gente acaba se perdendo também. No cafuné da mãe, nas lágrimas numa comédia romântica, nas fotos, no apego à nostalgia e nas esperanças com um moreno 1.80 de voz grossa.

O Adeus saiu despretensioso, enquanto eu o planejava. Foi sensato e imprescindível para um próximo passo. Quando se é uma agulha no meio do palheiro, as pessoas desistem de te procurar. E logo, se não se quer viver ali convivendo com as palhas o resto da vida, é preciso procurar um jeito de sair, por menos eloqüente que este seja.

Então eu me perco em devaneios e faço você se perder nesse texto sem pé, nem cabeça. Meio triste, meio feliz, meio aliviado. Perdido em palavras e sentimentos. Com vida própria. E é assim que eu me acho..

Sempre foi assim.

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Wednesday, February 27, 2008

Silêncio urbano

Mês passado eu percebi que a minha rua não era mais de paralelepípedo. Fiquei triste, depois das árvores, era dos paralelepípedos que eu mais gostava. Me passava uma sensação de tranqüilidade após caminhadas em asfaltos e buzinas. Há anos a minha rua era lotada de girassóis, hoje eles já não existem mais. Estão construindo um mega condomínio/clube/bosque/fazenda/praia na rua de trás, e eu acordo todo dia com pedreiros e engenheiros me dando bom dia (pelo menos é o que eu quero imaginar que aquela barulhada toda signifique). Essa manhã eu levantei para ir à feira e lá estavam eles, esses homens-máquina de merda, cortando as minhas árvores!!
Poxa, me dá uma vontade de chorar! Eu só queria que o mundo girasse mais devagar, e que as mudanças fossem mais lentas. Eu só queria que num futuro próximo ainda existisse alguma ruazinha, mal habitada, cheia de flores e cheiro de terra molhada para criar meus filhos e ser feliz. Eu só queria que eles provassem a sensação de ouvir a chuva bater no telhado, de andar de balanço, comer um bolo de chocolate e correr por essa mesma rua, atrás de um cachorro vira-lata, quem sabe…
E agora eu paro um minuto. É o silêncio pela morte dos meus sonhos.

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Wednesday, January 30, 2008

Obrigada por não me amar.

Você me ama?
Não.
O não-amor anula qualquer amor, desabita qualquer coração, economiza água, telefone.
O não-amor fortalece a alma, os músculos, emagrece.
O não-amor traz segurança, a certeza que você buscou justamente onde só haviam dúvidas.
É a minha fortaleza.
Obrigada por não me amar.

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Wednesday, November 21, 2007

Sem volta

Antes mesmo que eu me ajoelhe e te emplore que não seja a última vez, sempre vai-te embora. E eu sempre morro de medo que não voltes, ainda que de fato não haja volta nem para o que se foi há um instante. Nada volta, nem mesmo o desejo do que ainda virá. Então deixe partir, deixe ruir, deixe que a vida leve os restos de nós, ainda que vivos, pulsantes e cinza. Antes secos que desbotados, inchados de repúdio e dor. Fiquemos com a melancolia, com a lembrança emoldurada dos nossos retratos não tirados, com o sonho de um dia suspirar no teu ombro e não ter motivos para duvidar do teu silêncio. Mas nem mesmo sonhos voltam. E se é melhor cultivar esta pedra no peito que viver cega, sem pernas e braços, impotente diante do teu fardo que me trai sem trair, que me fere e me pune por não tolerar o imoralmente tolerado, serei rocha de diamante. Porque por mais que eu me derreta é impossível respirar nesse teu mundo líquido. É preciso voltar ao início, ao meu estado sólido, e caminhar sobre minhas certezas alienadas…Mas nada volta.

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Tuesday, September 4, 2007

Epitáfio

Três de setembro de dois mil e dezessete. Dez anos após minha morte.

Lembro-me como se fosse hoje daquele meu último almoço. No intervalo de vinte minutos, oito meninas compartilhando a mesma mesa. Quando cheguei, atrasada como sempre, seis já terminavam e se levantavam, me juntei às outras duas restantes. Comecei a comer meu macarrão gratinado sem vontade, já que nele continha presunto quente. Na primeira garfada desgostosa ouvi a voz daquela menina, de tão suave e serena me chamou atenção e percebi que seus olhos se direcionavam a mim, como se me chamassem para ouvi-la. Assim o fiz. Logo que cheguei mais para perto, a outra de voz estridente havia começado a falar. O assunto pouco me importou, falavam da super-ultra-mega importância que seus respectivos namorados tinham em suas vidas. Ela relatava sua sexta-feira internada no hospital, devido uma briga com o namorado. Aquela história tirava ainda mais o meu apetite. Desviei minha atenção para o mural, mas logo depois me voltei para o papo. Era a voz suave, ela misteriosamente me instigava. Foi então quando me contou sobre a sua vida, como se nos conhecêssemos há anos. Primeiro ela me explicou o porquê de seu namorado ser seu refúgio. Seu pai estava em estado terminal, sua mãe em depressão, e eles tiveram que se mudar esse ano, deixando para trás todas as pessoas que poderiam contar. Agora eram eles três e ela como base desse triângulo, tentando ser forte para não desestruturar o pai alcoólatra e a mãe, que durante anos sofreu adultério e foi espancada muitas vezes. Sem pensar duas vezes, a voz suave prosseguiu me contando da sua conclusão no curso de enfermagem, cuidando assim do seu pai, e antes dele já havia cuidado do seu tio, que há onze anos a abusou sexualmente. E por isso, o namorado era tão essencial em sua vida. Com ele ela podia chorar toda a dor de cada machucado que a vida havia feito, podia gritar a injustiça que era ter que aguentar todo aquele sofrimento em silêncio.

Aí eu percebi. Aquela menina dividia a sala todos os dias comigo, sentava muitas vezes ao meu lado, tinha a minha idade e participava de papos acadêmicos em comum sempre com um sorriso no rosto, mesmo que cansado. Enquanto eu, a cada cicatrização de alguma ferida, fazia questão de pegar a gilete e a arrancar, deixando a dor sempre em exposição. Dor? Não, o que eu sentia não merecia esse nome. Como eu fui pequena, fútil, egoísta. Perdi tantos dias da minha vida trancada para o mundo, achando que eu era o ser mais infeliz do planeta. A partir daí eu senti minha pressão baixar aos poucos, minha visão ficar turva e meus sentidos me largando. Senti tontura, muita tontura, mas era tranquilizante. Me sentia leve também. E agora eu estou aqui, morta. Querendo mudar tanta coisa, querendo ter sido mais eu. Torna-te quem tú és, já dizia Nietzsche naquele livro que eu tanto gostava. Devia tê-lo levado mais ao pé da letra. O futuro do pretérito toma conta dos meus lábios, mas nesse caso a condição é ter novamente a minha vida. Já está tarde, o vento leva as flores que deixaram para mim hoje. Minha mãe como sempre não me larga nunca, nem em pensamento. Queria ter sido uma filha melhor.. Encerro meus pensamentos, todo ano é sempre cansativo. É sempre vazio.

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Monday, August 13, 2007

Menininha demais

Tomara que ele não me ligue hoje – pensei assim que acordei.

Eu entrei no carro e a primeira coisa que ele fez foi me olhar da cabeça aos pés, e com espanto, exclamou a minha magreza. Para me confortar ou sendo sincero – sou suspeita a falar, já que meu estado físico muito me agrada – disse que eu estava muito melhor assim. E a noite toda foi essa bajulação enjoativa, uma hora era meu cabelo, outra minha roupa, mais a frente novamente o meu corpo, e como sempre, meu sorriso. No intervalo dessa miscelânea de elogios falsos e verdadeiros, ele prendia os olhos em mim fascinado, ao escutar todo o meu projeto de vida e meus planos futuros, e ao final sempre concluía meus discursos com um “fantástico”. Encheu-me de beijos em forma de palavras dizendo o quão inteligente, bonita e bom-partido eu era. Tudo mentira, ele, como poucos, conhecia o meu pior lado. Quando lembrei para ele, fingiu-se de desentendido e disse que se passava batido perto das minhas tantas qualidades. Tive vontade de vomitar em cima dele. Já faz um ano - tentei mudar de assunto. Tudo tem seu tempo – retrucou ele. Pois bem, para ele o tempo era agora, para mim o tempo foi em Agosto de 2006. Suas mãos estavam mais macias, o peito pelado, continuava bonito, com aquele sorriso exagerado, o gosto para bermudas que sempre detestei, e a mesma mania exagerada de ver graça em tudo. Apesar do tempo, estava tudo como eu deixei um dia, o dia em que não vi mais futuro naquele homem que eu sempre me dei tão bem, sem nem saber o porquê. Ele sussurrou no meu ouvido que meu beijo não havia mudado e que ainda gostava muito de mim. Ficou alguns minutos pedindo desculpas, mas durante 6 meses ele não fez outra coisa senão isso, e eu já tava de saco cheio de ouvir essa palavra vindo dele, acho que já até sabia as expressões que fazia ao dizê-la. Ao perceber meu desagrado, mudou de assunto dizendo que nós sempre nos demos muito bem, fiz que sim com a cabeça e alertei-o que meu copo havia esvaziado. Enquanto ele buscava uma outra cerveja, eu olhava para o mar e me perguntava se realmente era aquilo o que eu queria. A resposta era não. Eu tava cansada de me entorpecer com drogas que me davam alegria momentânea. Havia morrido de overdose e, por sorte, ressuscitado. Agora chega, eu estava fraca demais para qualquer aventura. Dei um gole no meu copo, agora cheio, olhei nos olhos dele e com os meus já marejados, interrompendo algum caso de trabalho que ele me contava, disse que já estava tarde e precisava ir. Nos beijamos, ele agarrou na minha perna, repetiu que realmente tinha gostado da minha fase magrela e aproveitou para contar que tinha adorado a noite, incrementando com mais uma das suas gracinhas “você foi a cereja da minha tortinha de domingo”. Dei uma risada sincera - como ele forçava ser engraçado sempre, algumas vezes ele acertava – e concordei, e não por educação, realmente aquela noite tinha sido muito agradável. Ele continuava com quase todos os seus defeitos (me pareceu mais tolerante e controlado), mas não perdia o seu encanto e sua capacidade em me arrancar umas boas risadas, sem falar na química que cismava em rolar, e essa deixava qualquer razão da matématica onde 1+1=2 no chinelo, com a gente 1+1=1 e ai de quem ousasse dizer o contrário. Cheguei em casa, tirei a blusa, e me veio a prova do crime - estava empestada pelo seu cheiro. 

Lendo novamente esse texto antes de publicá-lo, eu penso, repenso e finalmente concluo: se ele não me ligar hoje a porrada vai comer! Afinal, não adianta, a menininharomanticaquequeralimentarseuego não me larga!

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Sunday, August 12, 2007

Entre o preto-e-branco

E eu, que vivo no cinza, no mínimo tinha que por em letras a vida dessa mulher. Quem sabe talvez essa história não vá colorir a fração de hora que terei para escreve-la?

Tu, criatura miserável, nunca serás feliz. Nunca, nem por um segundo, me fizestes respirar e pensar no futuro. És uma doença, uma úlcera que vai se alastrando, mesmo que relute. Eu me trato, me vingo, fujo de ti, de mim, mas tu não me largas, me consome. Uma obsessão, um vício. Não tens um dom, só és útil na cama. Me cega aos princípios, às leis, ao direito, ao limite, me tira o controle e me lança ao impossível. Faz-me pulsar vida, ousar, diferenciar no meio desses humanos alienados. Por que eu? Quero ser medíocre, deixe-me em paz. Só mais um no meio da boiada, imploro. Ela se vira e carrega o peso da sua alma podre por entre as ruas daquela cidadezinha semideserta, perambulando pelas vielas de paralelepípedo. Olhos cansados, a idade já a atingira. Só queria dar cores àquela gente cinza e suja de passos minúsculos. Vermes hipócritas. Na esquina avista uma menininha mal vestida, com os pés no chão e trapos rasgados, lhe sorri. Era como se a semente esperança depois de algumas várias regadas diárias começasse a render alguns frutos. Deu-lhe a mão e um pedaço de pão. Era pequena e de tão magrinha as saboneteiras saltavam, devia ter entre os 7, 8 anos. Acolheu-a e passou a se empenhar no que melhor sabias fazer: ser mãe.

O amarelo me fará companhia esta noite.

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Wednesday, July 25, 2007

Doce porto seguro

Ele apareceu numa madrugada de um dia quase qualquer, um nove entre trezentos e sessenta e cinco. Dez horas durante quase quatorze dias, e uma falta tremenda de um no meio de mil. Pensei, duvidei, quase hesitei.
Fugindo do óbvio encontrei o seu cais, e minha âncora se fincou antes mesmo de eu perceber. Tive medo, tentei seguir a bordo, mas ai eu percebi o inevitável: o meu porto seguro. Muito além dos chavões, muito maior que o além mar.
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