Tomara que ele não me ligue hoje – pensei assim que acordei.
Eu entrei no carro e a primeira coisa que ele fez foi me olhar da cabeça aos pés, e com espanto, exclamou a minha magreza. Para me confortar ou sendo sincero – sou suspeita a falar, já que meu estado físico muito me agrada – disse que eu estava muito melhor assim. E a noite toda foi essa bajulação enjoativa, uma hora era meu cabelo, outra minha roupa, mais a frente novamente o meu corpo, e como sempre, meu sorriso. No intervalo dessa miscelânea de elogios falsos e verdadeiros, ele prendia os olhos em mim fascinado, ao escutar todo o meu projeto de vida e meus planos futuros, e ao final sempre concluía meus discursos com um “fantástico”. Encheu-me de beijos em forma de palavras dizendo o quão inteligente, bonita e bom-partido eu era. Tudo mentira, ele, como poucos, conhecia o meu pior lado. Quando lembrei para ele, fingiu-se de desentendido e disse que se passava batido perto das minhas tantas qualidades. Tive vontade de vomitar em cima dele. Já faz um ano - tentei mudar de assunto. Tudo tem seu tempo – retrucou ele. Pois bem, para ele o tempo era agora, para mim o tempo foi em Agosto de 2006. Suas mãos estavam mais macias, o peito pelado, continuava bonito, com aquele sorriso exagerado, o gosto para bermudas que sempre detestei, e a mesma mania exagerada de ver graça em tudo. Apesar do tempo, estava tudo como eu deixei um dia, o dia em que não vi mais futuro naquele homem que eu sempre me dei tão bem, sem nem saber o porquê. Ele sussurrou no meu ouvido que meu beijo não havia mudado e que ainda gostava muito de mim. Ficou alguns minutos pedindo desculpas, mas durante 6 meses ele não fez outra coisa senão isso, e eu já tava de saco cheio de ouvir essa palavra vindo dele, acho que já até sabia as expressões que fazia ao dizê-la. Ao perceber meu desagrado, mudou de assunto dizendo que nós sempre nos demos muito bem, fiz que sim com a cabeça e alertei-o que meu copo havia esvaziado. Enquanto ele buscava uma outra cerveja, eu olhava para o mar e me perguntava se realmente era aquilo o que eu queria. A resposta era não. Eu tava cansada de me entorpecer com drogas que me davam alegria momentânea. Havia morrido de overdose e, por sorte, ressuscitado. Agora chega, eu estava fraca demais para qualquer aventura. Dei um gole no meu copo, agora cheio, olhei nos olhos dele e com os meus já marejados, interrompendo algum caso de trabalho que ele me contava, disse que já estava tarde e precisava ir. Nos beijamos, ele agarrou na minha perna, repetiu que realmente tinha gostado da minha fase magrela e aproveitou para contar que tinha adorado a noite, incrementando com mais uma das suas gracinhas “você foi a cereja da minha tortinha de domingo”. Dei uma risada sincera - como ele forçava ser engraçado sempre, algumas vezes ele acertava – e concordei, e não por educação, realmente aquela noite tinha sido muito agradável. Ele continuava com quase todos os seus defeitos (me pareceu mais tolerante e controlado), mas não perdia o seu encanto e sua capacidade em me arrancar umas boas risadas, sem falar na química que cismava em rolar, e essa deixava qualquer razão da matématica onde 1+1=2 no chinelo, com a gente 1+1=1 e ai de quem ousasse dizer o contrário. Cheguei em casa, tirei a blusa, e me veio a prova do crime - estava empestada pelo seu cheiro.
Lendo novamente esse texto antes de publicá-lo, eu penso, repenso e finalmente concluo: se ele não me ligar hoje a porrada vai comer! Afinal, não adianta, a menininharomanticaquequeralimentarseuego não me larga!