Friday, June 30, 2006
O caminho do meio
Segundo Buda, a moderação é o caminho para o equilíbrio. Realmente é. Mas seria a moderação o único caminho?
Partindo, antes de qualquer coisa, para uma abordagem matemática, que afinal é ela que rege as leis do universo, existem números positivos e negativos, correto? Admitindo se ainda que exista uma projeção até o infinito para ambas as direções. Estabelecemos um conjunto duplamente infinito no qual conhecemos perfeitamente o seu meio. Se é que assim podemos denominar o ponto zero desse conjunto.
Admita-se então, que exista uma escala numérica para avaliar a quantidade de emoção de uma pessoa. Como por exemplo, a sensação de beber uma água geladinha +2, um abraço de um velho amigo +7, um cisco no olho -1, um beijo delicioso +15, dor de dente -8 e assim vai.
Imaginemos ainda que existam três tipos de pessoas.A primeira, na qual suas emoções raramente transbordem o trecho -10/+10.A segunda mais elástica -20/+20.E uma terceira com picos extremos em ambas as direções.
Pela visão de Buda a primeira pessoa é a mais próxima do “caminho”. Mas confesso que admiro e me identifico mais com a terceira pessoa.
Existe a opção de andarmos próximos a linha do “zero”. Mas existe uma inquietude na alma humana que nos faz querer expandir esses limites. Quem não trocaria um +4 por um +25/-21 que somaria os mesmos + 4, mas que ainda deixou na sua alma ferido para sempre o maravilhoso + 25 e o penoso -21. Ainda que esse lucro de +4 fosse nulo ou até negativo, seu saldo final seria compensado pela simples e tão essencial necessidade do ser humano de sentir. O maior de todos os dons.
Por Cabeça Latejante.
Buda, por favor, me ensina aí a andar por esse caminho do meio que tá foda!!!
Thursday, June 29, 2006
Uma jovem aos 70
Odeio telefone. Ao atender esta porcaria, no meio de um raciocínio, surge um ser que, sem permissão, tem a audácia de encher minha cabeça de abobrinhas. E eu já tenho abobrinhas demais na minha cabeça. Tu tu tu tu…
Volto a me concentrar e outra vez: Trimmm – não sei exatamente o barulho do meu telefone, mas fica decidido que vai ser trim mesmo – “Alô? Pituca?” Minha avó. Convidou-me para um almoço de despedida. Na semana que vem ela vai para a Bolívia, se casar.
Aos setenta anos vive uma história de amor com um namorado da juventude. Fabian era um rapaz bonito, charmoso e boêmio. Minha avó, uma linda menina boliviana proibida de namorar. Algum tempo depois, ela veio para o Brasil, casou-se e nunca mais viu o antigo namorado.
Hoje, viúva, com seis filhos e nove netos, transborda felicidade. Ao encontrar uma correspondência de Fabian, todo um passado de sonhos trouxe de volta sua alegria de viver. Trocam cartas, e-mails e passam horas no telefone, como dois adolescentes.
Ouvindo-a falar me desligo do tempo. Suas histórias e suas expectativas para o reencontro são vivas e contagiantes. Ela pede minha opinião sobre a cor do vestido, a flor que deve usar no cabelo, a cor do batom…Como uma amiga prestes a se casar pela primeira vez. Ela é engraçada, moderna, fala besteiras e me enche de orgulho. E eu achando que só se vive na juventude, morrendo de medo de ficar velha, chata e caduca…Bobagem. Minha avó contrariou todas as regras e vive hoje a mais linda história de amor que eu já escutei. Do lado da minha avó, definitivamente, eu sou uma velha gagá.
Tuesday, June 27, 2006
O grande mistério
Vasculho todos os cantos da casa. Estaria ela me pregando uma peça? Saio a sua procura pelos corredores, telefono para parentes, amigos, conhecidos… Nenhuma pista, nenhum sinal.
Nove e quarenta da manhã de um dia sombrio. Deixo meu corpo cair sobre a poltrona, não paro de me indagar o porquê do seu abandono. Logo ela, sempre tão servil, me deixar assim… Nunca imaginei que a rotina lhe angustiasse tanto, acreditava que talvez gostasse, afinal, ela sempre estava lá, me protegendo, tornando a minha vida mais fresca.
Foram três dias de incessante procura. Confesso que cheguei a provar de outros sabores, mas nenhuma outra conseguiu apagar em mim a vontade de tocá-la todos os dias.Seu cheiro incomparável, sua forma delicada, espetacular naquele tubinho colorido. Não podia me conformar com a idéia de nunca mais tê-la em minhas mãos.
Foi então que numa quarta-feira, sem mais qualquer esperança, abro a gaveta do banheiro e algo dentro de mim explode de felicidade. Uma lágrima escorre, molha meu pijama listrado, assim como ela. Mal posso conter tamanha alegria. Era ela. Continuava ali, exatamente onde a guardei. Como pude ser capaz de tamanha tolice? Dias e noites a minha espera, e eu achando que ela havia me deixado. Quanta injustiça.
Você, que eficazmente combate bactérias e mantém meu hálito fresco, me protege contra cáries e previne o tártaro, enriquecida com flúor e sabor de cereja. Minha querida pasta de dentes.
Absurdo
No meio do absurdo escrevi uma história de amor. Clandestino, foi se acomodando devagar, dominando indevidamente meu seco coração inabitado. Minha vidinha desbotada foi ganhando viço diante do abismo colorido que eu fiz de você. No meio dele, um rio de sonhos límpidos desembocando num negro mar de ilusões.
Tão certa e errada, bela e catastrófica. Uma história pautada por linhas irregulares e sentimentos melodiosos. Versos soltos, rimas inconformadas, palavras desconfiadas. Uma vida no meio das nossas vidas pra contar, pra cantar, pra sentir e pra dizer que nada pode ser mais magnético que nós dois.
No meio do absurdo escrevi uma história fabulosa, inabalável e inconstante. Absurdamente linda, uma história impossivelmente possível de uma vida no meio de tantas vidas. No meio do absurdo encontrei você, tão irreal e verdadeiro, tão meu e de ninguém.
Monday, June 26, 2006
Faxina
Dezenove horas e vinte e nove minutos. Após devorar alguns sanduíches e bombons, sento-me novamente nesta desconfortável cadeira que me deixa com três riscos vermelhos marcados na bunda. Busco alguma inspiração, mas só me vem uma leve azia e vontade de vomitar. Na varanda, algumas bingas de cigarro no cinzeiro em cima da mesa e minha cadela de pernas abertas olhando para mim, implorando por mais uma casca de pão. Ao meu redor, toalhas, almofadas, livros, lixa, pente, papéis no chão e uma lixeira vazia.
O telefone toca. A campainha toca. Estalo as costas, suspiro e olho novamente para o relógio.Eu preciso vomitar. Botar para fora o motivo da minha angústia, jogar na privada o lixo que me sinto por dentro. É difícil, não basta um dedo na goela. Serão necessárias horas e horas regurgitando. Vou revirar o passado que escondi em algum lugar que odeio ter que lembrar onde. Limpar a poeira que deixei pelos cantos e embaixo dos tapetes. Jogar no lixo expectativas infundadas que cultivei e sequer deram flores. Vou educar a criança mal criada, insolente e problemática que até hoje não deixei de ser. Quero descobrir mil quilômetros de verdade, aflitos e tormentos que carrego no meu caminhão de lixo sem saber o que é. Quero uma lente de aumento para enxergar insignificantes que significaram e hoje cabem debaixo da minha unha suja. Inúteis, velhos e sem valor, vou varrer tudo agora daqui.
Saturday, June 24, 2006
TOP 3
Opção ou não, cada um assiste o canal que quiser.Se só há uma tv na casa, manda quem paga as contas, quase sempre.Inegavelmente, a imagem da globo é a melhor.Mais definição, cores vivas, enfim.De cada cinco televisores ligados assistindo a copa, eu arrisco 4,5 estão lá.
A exclusividade de transmissão já me garante as quatro primeiras.A última fica por conta dos assinantes de tv a cabo.Entretanto, uma grande maioria destes, ainda assim, assiste a transmissão da globo.Então minha conta deve estar próxima do real.
Eu gostaria de deixar claro, que eu sou mais um dos a assiste. Realmente, a imagem é linda. Mas eu queria deixar registradas algumas curiosas reflexões. Um rápido TOP 3.
A narração do Galvão já virou uma piada nacional faz tempo. Bom pra ele.Mas não é esse o ponto. Que delícia seria assistir nosso querido Bussunda, nem tão querido assim, comentando os comentários desnecessários do nosso querido Galvão, não tão querido assim. Por que ninguém dá um cartão vermelho eterno pro Faustão? Teve um dia que ele foi apresentar o “sorteio do torpedão”, ao término de um dos jogos do Brasil, que ele estava chapadasso. Pelo menos parecia. Fora este curioso dia, é impossível não virar a cara da televisão quando este cidadão aparece “GRITANDO”…Desviar a atenção dele é um reflexo involuntário da maioria dos meus próximos. Observei. Que bom! Constatei. Somado a isso a eterna musiquinha da copa. Que não tem como não detestá-la. Não concorda?
Fica finalizado aqui, ao meu ver, o registro dos três pontos mais irritantes da copa na nossa querida Globo, não tão querida assim.
Por Cabeça Latejante
Friday, June 23, 2006
Funeral
Bom, hoje eu poderia falar sobre o jogo de ontem, um alívio, tanto para Ronaldo quanto para todos os brasileiros. Também poderia citar os próximos jogos da copa, assim como os países classificados para as oitavas. Poderia falar de política, do nosso presidente que eu amo – falar mal – e suas estratégias de marketing para o próximo pleito. Mas eu não quero falar de nada disso. Hoje é sexta feira, dia da minha morte.
Ao abrir as janelas hoje, o sol já me olhou esquisito e se escondeu atrás de uma nuvem cinza. Esta hora eu deveria estar no trabalho, mas algo maior me faz continuar aqui nesta desconfortável cadeira, deve ser porque hoje eu morro. Mais tarde, depois que volto da academia é a hora mais dolorosa. É quando sinto, começando pelo dedão do pé, um frio de congelar, depois vem a dormência, aos poucos vou paralisando até morrer completamente. O processo pode ser mais rápido quando a TV está ligada, como uma “carga pesada” em cima do meu ego, da minha auto estima, como um balde de água fria na minha mente borbulhante de sexta feira a noite.
Morro por querer viver demais, e desejar além das possibilidades. Morro de raiva, de desespero. Morro amordaçada, trancafiada num quarto escuro, úmido e frio. Morro mais ainda quando a noite é de lua cheia. Lua cheia mexe com meus hormônios de uma maneira inexplicável, como se fizesse meu sangue correr mais rápido. Meus poros se dilatam como se implorassem por mais ar, minha boca saliva e o coração bate mais forte, tão forte que não consigo dormir, como um tambor batucando dentro de mim.
Hoje é o dia da minha morte. Dia em que sou tão viva que morro por isso. Que morro mais ainda cada vez que ouço uma música animada no rádio indo para casa dormir. Que morro por não viver mais.
Wednesday, June 21, 2006
Pra te dedicar
Uma vida toda desejando mais um pouco de tempo para viver. Mais tempo para uma vida jovem, de vitalidade, brilho na pele e fôlego para correr contra o as horas cada vez mais raras. Só mais alguns minutos entre uma e outra coisa, para que eu possa prestar mais atenção nas suas gargalhadas. Um pouco mais de vida nos dias frios que passo rezando de pés descalços por um raio a mais de sol.
Só mais uma vida pra te dedicar. Passar sete horas inteiras escutando você falar besteiras, me fazendo acreditar que, lá fora, nada mais existe e que a mulher mais linda do mundo sou eu. Ao menos mais um pouco de tempo, para que eu torne eterno esse último segundo, tão primeiro e único.
Só mais uma vida, temporária, de tempos em tempos, um pouco mais de muito, bastante e insuficiente. Ao menos um pouco mais de tempo, do tamanho do nosso vazio tão cheio de nada. E só mais uma vida inteira pra te dedicar.
DECKS
Naquele momento do primeiro gol, justamente eu estava bem acima de onde estava passando o jogo. Em cima do deck, olhando o mar…Fumando um e conversando sobre quantos decks são dissipados durante a comemoração de um gol do Brasil.
Quanta pressão em cima dos caras, o Brasil fez duas jogadas depois do segundo gol, de toque de bola, que não fez durante todo o jogo.O primeiro gol não foi suficiente para fazer a seleção relaxar, juro que lá de cima do deck eu torci para que o gol fosse do Ronaldo, o fenômeno, aliás, segundo aqueles que não tem mais o que falar, fenômeno há quatro anos, agora Ronaldo, o gordo.Eu acho que o carequinha vai ser importante ainda neste mundial, minha opinião.
Tristeza de uns, alegria de outros, a estrela de Fred brilhou. Ou será a do Parreira?42 minutos? Pq não botou o cara antes, 35 sei lá.Bom já dizia algum comentarista desses aí, que meio gol é do técnico.Nesse caso eu concordo plenamente.Eu teria colocado o Robinho aos 25 do segundo.
Pelo que eu entendi ficou acertado o seguinte, Kaká, R. Gaúcho, Robinho e Fred.Não é o quadrado mágico, mas é um quadrilátero sem dúvida, e sabe lá pra qual lado ele vai tombar.
Mas também quero deixar anotado e relatado o seguinte: no mata –mata a coisa muda. Arriscar tudo contra o Brasil é normal, ainda mais na primeira fase.Mas quero ver quem é que vai correr o risco de tomar dois gols do Brasil no primeiro tempo.Já tem cheiro de goleada.Todos nós sabemos disso.Pode ser Itália, Alemanha, Togo, e sei lá que país vai sofrer frente à amarelinha.
Voltando ao deck…Foi estipulado o seguinte: DECK é uma unidade de medida, criada para calcular a vibração(energia dissipada) de um ser humano para o meio ambiente, proveniente de uma manifestação qualquer.Um grito de gol por exemplo.Quantos decks são emitidos quando um brasileiro grita gol?Bom, é claro que varia de pessoa pra pessoa, ocasião, nível de sobriedade do individuo e assim vai.
Mas parece bem razoável pra mim que qualquer manifestação de alegria, ou dor emita uma onda de energia para o meio ambiente.Assim como num orgasmo a sua energia é injetada a meu ver na parceira/o. Num grito de gol, a sua explosão é lançada no meio.Para onde vai?Como medir a intensidade?
Fiz-me esta pergunta pela primeira vez naquele momento.(releia o primeiro parágrafo)
Seja lá pra onde for, espero mesmo é que muitos decks brasileiros sejam emitidos até o fim da copa.Não há como não querer!Será iniciada uma profunda pesquisa sobre como medir a intensidade de um deck.Quem sabe um premio Nobel?
Escrito por Cabeça Latejante.
Lateja tanto que posso até sentir os DECKS.
E se não ganhar o Nobel, já ganhou, ao menos, minha admiração. Obrigada.