Um pombo no telhado
Vontade de gritar, de dizer alguma coisa que eu não sei o que é. Faz tempo que eu não me sinto assim, com um nó na garganta. É uma vontade de chorar, mas eu não quero chorar, eu odeio chorar. Eu não vou chorar. Vontade de virar a vida de avesso, sacudir até mudar tudo de lugar. Nada vai ficar onde eu havia deixado, porque eu já deixei coisas demais pelo caminho, pelo caminho errado.
Ontem tinha um pombo no telhado, bem debaixo da minha janela, eu olhei pra ele e ele ficou me olhando, me dizendo tantas coisas. Eu precisava daquele pombo ali, na minha janela, naquela hora. O jeito que ele mexeu a cabeça me fez entender coisas que só um pombo entenderia. Eu poderia ficar horas ali, porque naquele momento eu me senti tranqüila, serena, despreocupada, como um pombo no telhado.
Ele voou, eu não. Continuei ali, olhando por aquela janela estreita do meu quarto, procurando algum objeto que eu pudesse conversar. Aos poucos o céu foi ficando rosa, pude ver o horizonte se esticando até desaparecer num breu total. Acenderam-se as luzes. Eu era mais uma janela acesa no meio de um mar de luzes e janelas de todas as formas, de todas as cores. Quando uma se apagava, acendia-se a outra, e outra. Assisti a vida numa cosntante e despretensiosa mudança. Não havia razão para não mudar. Queria ser mais uma janela que se acende depois das 18, mas infelizmente eu não sou. Apaguei a minha luz, debrucei mais um pouco e fiquei ali, observando o mundo se movimentar, como um pombo no telhado.