Sunday, July 30, 2006

Seu jeitinho rebelde.

        (Por Léo Jaime)

         Estou pensando em lhe dizer estas coisas há algum tempo. Não acredito que lhe sirva de nada, mas talvez faça algum bem a mim mesmo. Por isso decidi.
         Tenho observado ao longo do tempo que suas posições são sempre contestatórias, sempre duvidando de tudo e de todos. É interessante. Não é aquele que engole qualquer coisa. Ao contrário, não engole nada. Não vai a filmes americano, não ouve música de artista vendido, quer dizer, que vende, não acredita em políticos que não sejam radicais e desconfia de quase tudo o que ouve. É bacana: o mundo parece lhe dever explicações.
         Vejo o seu olhar de superioridade para com as meninas arrumadas para sair, como se as julgando fúteis, o mesmo que você lança para os que defendem argumentos, sejam lá quais forem, ou torcem para a seleção brasileira, ou gostam de filmes, peças, shows e discos que fazem sucesso, ou fazem programas que estão na moda. Como lhe parece entediante o mundo e seus cidadãos. Achincalhar argumentos é tão mais divertido! Mostrar o podre do mundo, dos projetos e das pessoas é tão mais sagaz, não é? Corajoso? Charmoso? Humm, não sei. Deixamos isso para depois. Vamos continuar ainda nas suas opções.
         Atitude. Esse é o nome que está por trás de tudo o que lhe sustenta. Você aposta todas as fichas nisso. Alguém vai lhe perguntar as horas e seu impulso primitivo é dizer não. Não quer dizer as horas. Não é obrigado. Quer se livrar da obrigação de ser gentil e ter que ficar atendendo os outros. E se não age assim, pelo menos pensa nisso. Consultando limites para a própria rebeldia. Sim. Ser do contra implica em ser antipático, chato, ter uma nuvem cinza sobre a cabeça o tempo todo e você sabe disso. Por exemplo: quando alguém dirige você vai criticando o caminho que a pessoa faz. Não se deve fazer isso sem oferecer um outro caminho e justificar. Sim, é importante dizer o porquê de o outro caminho ser melhor. Isso vale para política e afins. E se você não faz assim você é só um chato. Observe a oportunidade da réplica e de que pode não haver concordância, pelo menos de imediato. Ou nunca.
         Dizer um não, simples e rotundo, ao mundo e à vida, pode parecer charmoso e lhe conferir um ar de sofisticação. De quem não se contenta com qualquer coisa. Sim, é verdade. Só que quem não se contenta com nada está fadado ao insucesso. Ser infeliz de propósito, ser um perdedor por iniciativa própria é antes de tudo uma demonstração de total covardia. Por tanto, se você imaginava que a pose de rebelde contra tudo e todos ia lhe conferir um ar de coragem, esqueça: esta é a solução dos covardes. Não apostar em nenhum dos cavalos da corrida e meter o pau em todos não dá crédito para ninguém se gabar do próprio azedume depois. É preciso ter um projeto, seja lá qual for, e acreditar em alguma coisa e lutar por ela.
         É preciso ter algum senso de estética para se construir um sonho. E colorir este sonho. E depois tentar fazer deste sonho algo real. E não importa se muitos vão acreditar nele ou achá-lo interessante. Mas é preciso amar alguma coisa ou alguém para se poder dizer dono de alguma postura, ou atitude. Odiar não é uma postura corajosa. E era isso o que eu tinha para lhe dizer: odiar é muito confortável e lhe parece a solução para todo o que você não entende e não sabe como lidar. Você odeia tudo o que não entende. E você não entende quase nada porque odeia tudo.
         Tome uma atitude.

Não costumo publicar textos de pessoas famosas, mas Léo Jaime nem é mais tão famoso assim…
E confesso que virei sua fã agora.

Vale lembrar que as eleições estão chegando.

 

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Vida efêmera

            Deixei para morrer hoje, depois de duas semanas viva. Vivendo cinicamente, porém vivinha da silva, com direito a objetos e sentimentos materiais e superficiais que julgamos essenciais para viver. Mas hoje, quando senti um aperto no dedão eu já sabia que era morte certa. Acertou tão em cheio que nem tive tempo de fazer meu último desejo. Quando me vi, já estava estirada sobre o tapete empoeirado da sala, intoxicada com meu próprio veneno, no silêncio de um domingo chuvoso.

            Vida efêmera, de poucos dias curtos e mal resolvidos, ensina-me a morrer mais lento em noites menos frias. Diga-me o que fazer para viver em dias mortos como este e não precisar morrer completamente para ter que nascer tudo outra vez. Mantenha-se em linha reta, ao menos em uma vida entre tantas vidas curvadas e cheias de buracos. Exija que eu me levante e diga para a morte que eu estou viva cacete! Que coisa mais chata essa de morrer várias vezes na vida. Eu hein…

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Eu, você e um castelo.

                Vou começar transformando este quarto num castelo submerso e esta mesa num navio estrelar, não necessariamente nesta ordem. O navio está do lado de fora, ou onde você preferir. Este é um castelo secreto, que por meio de pernas e braços não se pode chegar. No meu castelo eu posso ser eu, embora ser eu já tenha sido ser melhor e hoje não me tem feito tanta falta assim. Mas já que você está aqui, será que eu posso ser você? Prometo que já te devolvo você, um pouco mais eu, talvez.

            Parece que você sabe o que quer e sabe se divertir, o que me faz ter vontade de ser você pra sempre. Quem sabe você, aqui dentro do meu castelo, possa tentar ser eu um pouco, só pra sentir como é gostoso ser você agora. Entre lá no meu navio, pode dar uma voltinha sem cerimônia, eu faço questão da sua cara de babaca perdido no meu universo. Enquanto isso, eu tomo um banho com você em mim, só pra relaxar. Posso sentir você completamente diluído no meu mar hipotético em preto e branco. De longe, ainda consigo te ver bem pequenininho, do tamanho que é ser eu. Mais tarde, eu e você, de unhas vermelhas, passearemos por este castelo líquido e azul. Fique à vontade, aqui as horas não passam de horas que passam indiferentes, e você, ainda tem muito o que fazer dentro de mim.

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Tuesday, July 25, 2006

Feliz dia comum

               E hoje, cercada de problemas, recortes de jornal, telefones, dúvidas e multas de trânsito, eu estava feliz. Era tudo tão normal, de pessoas normais, de fatos e relatos prováveis e vivenciáveis, ainda que confusos, mas completamente ordinários, comuns a qualquer pessoa.

            O normal nunca me confortou tanto. Por um instante cheguei a pensar em casar, ter filhos e morar numa casinha de telhado vermelho e cerquinhas brancas. Não mais consigo ver graça em ser diferente e moderninha, ter idéias brilhantes e inúteis que só servem para entupir minha cabeça de lixo filosofal. Tudo que eu quero agora é entrar no meu carro limpinho, ter os documentos em dia, o tanque cheio e minha cabeça completamente vazia. Pegar meu diploma e pendurá-lo na parede entre telas borradas e teias de aranha.

            Chegar em casa no final de um dia entediante, ver minha cadela extremamente feliz com a minha presença depois de um dia inteirinho sem fazer absolutamente nada num quintal de alguns metros quadrados de grama e árvore. Como pude ser capaz de me achar infeliz enquanto por um momento fui a própria felicidade nos olhos daquela cadela que me esperava dentro de um quintal tão chato?  Minha vontade era entrar e sair cinqüenta vezes só para presenciar novamente aquele rabinho sorridente balançando exclusivamente para mim. E por fim, eu, aquele rabinho e um dicionário, cheio de palavras e significados, traduzindo a felicidade que encontrei onde ninguém costumava procurar.

 

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Monday, July 24, 2006

Retrato 3×4

         Continuar obsessiva e sensível seria suicídio, logo aprendi a amar menos e a ser sonsa. O que não tornou a vida mais fácil, mas menos dolorosa. Olhar para trás me fere o peito,  afinal, lá ficou o meu lado bom. 

         E esse lado bom é o que me atormenta, é o que enfatiza a minha imperfeição e me embrulha o estômago. Ele escondia ,por trás de sorrisos,  a melancolia e a solidão, o que hoje se tornou impossível disfarçar. Me trazia fantasias, me deixava cada vez mais fútil e superficial. E agora sem ele me torno a  pior definição do cinismo, a procura de eufemismos para o meu tombo.

        Estou sem armaduras e escudos, exposta às feridas das minhas escolhas. Covardemente guardando papéis, palavras e resquícios do meu lado bom  para lembrar o que o coração insiste em esquecer

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Friday, July 21, 2006

Inválido conto de fadas

         Estava ali na praia, eu e minha sombra, que de tão eu parecia invisível. Era tarde, luzes piscavam no horizonte e a minha volta via castelos de areia construídos pelas mãos mais delicadas. Minha vida que foi sempre tão real, tão fria, ali encontrava o sentido que há tempos procurava.

         Um velhinho, que me olhava de longe, resolveu se aproximar. Sem dar uma palavra, me abriu o sorriso mais sincero e desdentado que eu já havia visto, e me mandou tentar. Expliquei que dentro de mim a única coisa viva era o rancor. Ele, com compaixão,  murmurou que eu cometia um engano e que eu tinha uma alma piedosa.

Resolvi começar a construir o meu castelo, desesperançada de que dali pudesse sair algo ingênuo, voltar a infância era algo pleno demais para mim. Surpreendentemente, o meu castelo foi o mais bonito, ali habitavam as mais belas pessoas respirando felicidade. Inventei uma história qualquer onde todo mundo vive feliz pra sempre e fica grávida.

         Olhei para o lado e já muito longe avistei o velhinho, corcunda e com andar cansado, a caminho do forte. No relógio marcava 20 para as 11, resolvi voltar para casa. Andava pela rua me sentindo leve, por pouco não dei boa noite pro vigia tarado. Cheguei na cozinha, fiz um bolo de chocolate e assisti desenho animado, dormi na cama dos meus pais, no meio dos dois para não sentir medo. Levantei cedo, botei meu vestido florido e fui à feira comprar frutas. Na volta vejo um tumulto, ambulância, falação. Permiti me aproximar. Chegando lá não acreditava no que via, estirado no chão e já sem vida, ele, o velhinho que me ensinou a voltar a viver.

         Junto dele se foi a fantasia, a inocência e os sonhos que por alguns minutos habitaram meu peito.

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Auto Assassinato

                De dentro do decote ela tirou a arma, apontou para a vítima e descarregou tudo que há anos guardava debaixo da cama. Tudo minuciosamente planejado, horas e horas tramando um plano bom o suficiente para liquidar de vez com isso, sem deixar pistas, sem deixar nada.

            Tudo começou quando a vítima, nem tão inocente assim, lia tranqüilamente seu livrinho enquanto esperava a própria ruína desabar sobre a miséria da sua vida sem riscos.  Era possível ouvir o som dos passos, mas não desconfiava da pura e sorridente que a beijou com lábios sórdidos. Entregou seu amor miserável e valioso e, desbancada, virou-se de costas. Foi então que a mulher loira, com seu decote e seu salto imaginário, dispensou caráter e, sem ao menos pensar duas vezes, deu um tiro certeiro no meio da possibilidade que regia seu mundo cor de rosa e enferrujado. Desbaratada, a vítima ensaiou um belo discurso florido e inconsistente para se auto convencer da divina incapacidade de dizer o que não pensa. Mas a mulher, ainda com seu decote, fez-se desentendida e saiu pelos fundos sem fazer barulho deixando, apenas, uma catástrofe dentro de si.

            Ela entrou no carro, tirou o disfarce e sorriu, como prometera para o retrovisor há duas horas. Retocou o batom e fugiu pelo caminho alternativo. Ela era mais feliz antes mesmo de cruzar a esquina. Ela era mais loira, mais magra, mais leve. Ela era outra, outra vez.

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Wednesday, July 19, 2006

Utopia

            O noticiário ontem me deixou triste. No noticiário eu vi pessoas que matam, que roubam, que mentem. No noticiário eu vi mares engolindo gente, bombas destruindo gente, gente maltratando gente. Eu vi como é horrível viver por aqui.
            No meu mundo não existe isso.

            Era uma vez um menininho feliz que vivia numa cidade feliz. Ele morava numa casa com teto e parede, ele estudava numa escola com livros e merenda. Quando ele ficava doente, ia num lugar que tinha médicos e remédios. Tudo isso acontecia porque tinha um moço inteligente e honesto que cuidava disso para ele. 
            Esse moço morava na capital, e diziam que ele era responsável por todo o país. Ele também tinha uns assistentes, porque o país era muito grande e ele não dava conta. Esses moços todos também eram inteligentes e honestos, e a gente confiava neles.
            Cada país tinha um moço gente fina desse pra tomar conta. E quando tinha algum problema, todos eles se reuniam pra resolver. Como cada país era um pouco diferente do outro, eles cuidavam para que todos tivessem o que precisavam, e assim, fossem todos felizes.
            As pessoas sabiam que eram todas iguais, por isso respeitavam umas as outras. Se algo de ruim ocorresse, todos se uniam para ajudar. Porque elas sabiam o que significava compaixão, fraternidade e dignidade. E viviam todas em paz, assim como Jesus Cristo, Moisés, Alá e Jah gostariam que fosse.

            Pena que esse mundo não exista, e a gente fique triste a cada vez que se dá conta de como a vida poderia ser se o humano fosse humano.

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Tuesday, July 18, 2006

SORRIA

               Um dia alguém me disse que eu precisava sorrir mais, que eu precisava cumprimentar as pessoas que nem conhecia e dizer bom dia para a velha do elevador. O tempo foi passando, aos poucos fui aprendendo que para sorrir eu não precisava estar feliz e que ninguém está interessado se está tudo bem com você quando te pergunta se está tudo bem com você. Com o tempo aprendi que sorrir é a melhor forma de esconder a tristeza dos olhos, porque os olhos não mentem.

            Vou sorrir para a vizinha louca que matou meus gatos e matá-la de arrependimento. Vou sorrir para a velha do elevador e dizer bom dia, porque eu não consigo imaginar um bom dia dentro de um elevador. Vou agradecer àquele sorriso desdentado devolvido no corredor e agradecer mais ainda por eu ter todos os dentes. Vou cumprimentar o flanelinha e sorrir, ainda que eu o deteste. Que se foda, eu vou sorrir só de raiva.

            Um dia algum infeliz me disse sorrindo que eu era séria demais e percebi que todos os infelizes sorriam também.

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Sunday, July 16, 2006

Completa

Fiz um café. O primeiro gole me queima a língua. Quente e forte. O amargo do segundo toma meu corpo, franze minha testa, estranhamente me conforta. Um pedaço de bolo de abacaxi me lembra que detesto abacaxi. Outro gole quente e mais três ou quatro pedaços do bolo que detesto me preenchem deliciosamente.

O doce e o amargo se encaixam no meu abismo de contradições. O líquido escuro e quente ativa as engrenagens desta máquina estranha que porto. O macio bolo açucarado desperta as fadas, príncipes e bonecas do meu baú de ilusões.

Estou completa. Dentro deste mundo de sonhos, café e farinha, não me preocupo com o que pode estar havendo fora do meu umbigo. Estranha necessidade de não necessitar.

Uma eternidade procurando algo que ocupasse essa imensidão, nunca satisfeita, e agora simplesmente não precisava de nada. Até que o café esfriasse, o bolo acabasse, e tudo voltasse a ser como era.

Era o ciclo das coisas, tristes que são.

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