Completa
Fiz um café. O primeiro gole me queima a língua. Quente e forte. O amargo do segundo toma meu corpo, franze minha testa, estranhamente me conforta. Um pedaço de bolo de abacaxi me lembra que detesto abacaxi. Outro gole quente e mais três ou quatro pedaços do bolo que detesto me preenchem deliciosamente.
O doce e o amargo se encaixam no meu abismo de contradições. O líquido escuro e quente ativa as engrenagens desta máquina estranha que porto. O macio bolo açucarado desperta as fadas, príncipes e bonecas do meu baú de ilusões.
Estou completa. Dentro deste mundo de sonhos, café e farinha, não me preocupo com o que pode estar havendo fora do meu umbigo. Estranha necessidade de não necessitar.
Uma eternidade procurando algo que ocupasse essa imensidão, nunca satisfeita, e agora simplesmente não precisava de nada. Até que o café esfriasse, o bolo acabasse, e tudo voltasse a ser como era.
Era o ciclo das coisas, tristes que são.