Monday, August 28, 2006

Respire azul, Cristina.

               Tente Cristina, tente respirar azul. Respire fundo. Sinta o azul tomar conta de todo o seu corpo. Você está mais leve, mais calma…Sinta Cristina. Sinta as pétalas de rosas brancas caindo sobre a sua cabeça e deixe-as levar todas as impurezas da sua mente. Pense em algo bom. Pense Cristina. Pense numa praia linda, com areias brancas e águas límpidas. Agora, Cristina, uma luz laranja aparece bem no meio da sua testa, está iluminando seus pensamentos. Tudo que era escuro e duvidoso lhe parece mais claro agora. Respire laranja Cristina. Sinta a luz entrando nos seus pulmões. Agora acorde Cristina. Abra os olhos e veja a realidade outra vez.
             Cristina abriu os olhos e diante dela avistou um relógio que marcava o tempo perdido. Respirou a poeira dos cantos dos móveis antigos e dirigiu-se para o beco onde havia deixado seus pés. Tudo estava como antes, nenhuma luz laranja conseguira iluminar a sombra do beco sem saída. Nenhuma pétala branca conseguira apagar a os arranhões profundos. Nenhum azul conseguira aliviar o peso dos pulmões imundos.
             Pare Cristina. Tente enxergar como sua vida é boa. Tente olhar para as pessoas chatas que lhe amam. Repita o clichê idiota que nada acontece por acaso trinta vezes antes de dormir. Admita Cristina, você tem uma vida perfeita. Você tem uma família, duas pernas, dois braços, dois olhos, um nariz e uma boca que não fala. Abandone suas vidas passadas que lhe atormentam e sufocam a alma. Abandone Cristina. Olhe para frente. Olhe para a sua volta e veja quanta gente é feliz com um terço do que você tem. Repare bem Cristina. Pare de olhar o relógio. Pare Cristina. Descruze os braços. Respire azul Cristina. Respire azul.
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Saturday, August 26, 2006

Sem retorno

      Leia-me. Conte-me. Sim, escreva um best seller. Coloque uma capa de fino veludo vermelho com letras brilhantes banhadas em prata, cobrindo minhas folhas de papiro. E deixe -os. Envenenados estarão, assim como nós.
     
Contorne minhas páginas com ondulações e movimentos repetidos cadenciados por um beat incessante, e deixe-os fluir em devaneios. Permita-os entrar. Estarão perdidos. Suas pegadas se apagarão entre areia, luz e os sorrisos das crianças.Ou ainda pela penumbra do fim do dia e seus tons.
     
Entorpecidos por física quântica, Alberto Caeiro e cloreto de sódio ao ponto de lágrimas e sorrisos descompassados intercalarem seus momentos de lucidez.Não haveria volta. Assim como para mim não houve.
     
Envoltos por uma brisa do meu celoma ,derreterão. E se tornarão pensamentos. Como tudo é. Nossa música lhes faria ouvir outros sons, nossa arte lhes tornaria coisa alguma, assim como ela a si própria fez.
     
Incline-me trinta graus, aberto na página 142 e lendo a quarta linha do terceiro parágrafo de trás para frente verão que nada acontece. Apenas letras tortas, cor, movimento e som.

Por Cabeça Latejante
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Friday, August 25, 2006

O reconhecimento

                Estou apertada para fazer xixi, mas antes preciso lhe dizer uma coisa:

            Eu não quero que você me ame, nem que eu ganhe muito dinheiro com aquela idéia genial, mas eu preciso que alguém reconheça a causa da minha garganta arranhada e que aquela idéia foi realmente o máximo, ainda que com a mínima recompensa.

            Traga-me um copo d’água, preciso engolir essa coisa entalada aqui. Essa coisa que arranha minha alma e me faz ter vontade de morrer de vez em quando, mas que me faz querer ser melhor que ontem. Porque eu não sei me contentar com essa coisa medíocre que tentam me fazer ser, que tentam me empurrar por duzentos reais e uma caneta dourada.

            Traga-me um dicionário, preciso descobrir aquela palavra que eu não lhe disse, mas que grita aqui dentro cada vez que seus olhos me beijam. Porque eu não sei ser compreendida através dessa forma convencional que lhe acostumaram. Porque talvez eu seja aquela mulher, para uma vida toda, mas juro que já estou satisfeita por ter sido essa mulher hoje. O reconhecimento do meu amor lhe torna ainda maior que o nosso mundo todo.

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Tuesday, August 22, 2006

Até que o sinal se abriu

             Até que o sinal se abriu, e diante de mim desenrolou-se um tapete de asfalto quente que de tão grande não se via o fim. No caminho, todas as esquinas iam ficando para trás, uma de cada vez, e meu mundo ia deixando de ser cinza. Eu poderia descrever um mundo maravilhoso que encontrei bem ali em frente, depois da curva. Dizer que depois do horizonte encontrei a felicidade e um pote de ouro. Sorrir e dizer que estou completa, ainda que pela metade.

            Porque estou tentando ter uma vida prática, dar soluções simples para todos os cálculos e interrogações da minha cabeça desorganizada e cancelar aquele amor parcelado em cento e cinqüenta vezes. Acontece que quando eu penso na porra da vida prática eu também penso naquelas parcelas em aberto, e aí eu não consigo fazer mais nada direito. Então, toda a minha filosofia da vida prática, construída com a certeza absoluta de estar fazendo a coisa mais racional e inteligente da minha vida, desmorona com a possibilidade de mandá-la para a puta que pariu, junto com todos os conselhos reais, de pessoas reais, tão diferentes de mim.

            E meu mundo desmorona mais uma vez. Até que o sinal se feche de repente. Até que o ônibus estrelar passe de novo. Até que eu seja obrigada a lembrar que vida prática não é vida pra mim.

            E aí eu vejo você, ali no canto onde eu lhe coloquei, daquele mesmo jeitinho de sempre, só que agora mais decidido, e penso se realmente estou fazendo a coisa certa. Mas diante do sinal aberto não me resta outra opção a não ser seguir em frente. Ainda que com o coração no banco de trás, olhando você girar o mundo, sumindo num horizonte lilás sem mim.

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Sunday, August 20, 2006

Pra ninguém

               Essas palavras são pra quem ama tudo e nada ao mesmo tempo. Pra quem vive sonhando enquanto a vida bate na porta e não a deixa entrar. Pra quem segura o passado com mãos egoístas e se esquece que ele não volta mais. Pra quem vive no longe e não presta atenção por onde pisa. Pra quem esmaga o coração num chão gelado e acaba com toda uma vida de horas intermináveis. Pra quem se enquadra em tudo e acha legal andar em linha reta, mas se esquece que o reto é um saco porque é sempre igual. Pra quem se deixa levar por opiniões alheias e torna a própria opinião inválida. E pra quem acha que já viveu demais enquanto eu não me contento com uma única vida.

            Essas palavras são para quem não vê mais graça em rimas. São pra quem tem medo de flutuar e se amarrou no pé da cama. Pra quem perdeu a voz de tanto gritar em silêncio. Pra quem se diz corajoso e se afoga num copo d’água. Pra quem diz que ama demais, mas ama apenas a si próprio. Pra quem finge ser simples, mas complica tudo sempre. Essas palavras são pra quem jura que ser sincero é ser romântico, enquanto mente pra si mesmo. Pra quem se ilude com verdades absolutas nesse mundo de farsas. Pra quem só acredita no que vê, mas concorda com tudo que dizem por aí. Pra quem não entende nada que eu escrevo e se sente ofendido por ser tão importante.

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Friday, August 18, 2006

Preciso de um banho

          Quero tomar um banho que me limpe dessa imundice. Desse cheiro cinza e pesado que me acompanha pela rua. E  desse óleo que entope e afoga meus poros e torna minha pele asquerosamente escorregadia e brilhante. 
         
          Quero me limpar de todas as sujeiras das noites. Do cheiro de dinheiro e mijo de cada bar e esquina. Do cheiro dos perfumes franceses e dos cremes de beleza. Da bebida, do cigarro e da merda dos esgotos. Dos sorrisos falsos das putas e de todas as outras. Queria limpar todas as nuvens do meu céu e todas as manchas de vermelho do meu lençol. E saber que estou fazendo a melhor coisa da minha existência.          
          Quero uma ducha numa cachoeira sagrada que purifique meus sonhos, meus desejos e limpe bem embaixo de minhas unhas. Que não deixe sequer uma mancha, para que eu nunca mais me sinta assim. Sujo. Queria limpar-me de toda a podridão que eu como, vejo e sinto.
        
          Por isso agora eu vou tomar um banho e depois dele não serei mais a mesma pessoa.
 

Por Cabeça Latejante.
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Thursday, August 17, 2006

Vermelhinho 35

Acordei surpresa, jamais poderia imaginar, nem em sonho, escutar aquela música novamente. Com o mesmo desafinado, as mesmas paradas, as mesmas vozes e os mesmos  arranhões. No sonho, eu a dançava com aquele sapato. Era o mesmo de sempre, vermelho, envernizado, tamanho 35, mas não causava o mesmo conforto. É verdade, ele passou por poucas e boas comigo, dançou músicas inesquecíveis, me ajudou a fugir quando tive medo e já me rendeu muitos tombos. Mas agora estava pequeno para um pé cheio de calos de pisar firme, e cheio de marcas por pisarem firme nele. Eu, que nunca admitia essa incompatibilidade, me vi persuadida a tirar o meu vermelhinho do armário e doá-lo para um novo pé.

Estava na hora de aposentá-lo e comprar um maior, mesmo não tão resistente, não tão disposto a dançar todas as músicas que o vermelho dançou, mas confortável. Será meu pedestal, me dando apoio às irregularidades da vida e se adequando a minha forma.

Durante o período em que o antigo começou a me incomodar, eu andei descalça. Senti o frio, o quente, o sujo, e as pedras, que desgastaram e feriram a delicadeza que havia em meus pés. Hoje, nessa manhã fria, tomando um café que de tão quente e amargo dói os dentes, cansada de me machucar seja descalça ou com um sapato incômodo, o que mais precisava era de um par novo que me encorajasse para sair por aquela porta, e que me fizesse sentir que algo aqui dentro ainda está vivo.

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Wednesday, August 16, 2006

Física quântica

               Não, eu nunca vi nenhum desses filmes. Não, também não entendo nada de física quântica. Que audácia a sua querer me explicar coisas tão inexplicáveis, mas de qualquer forma, obrigada.

            Então, faça-me entender como a vida pode ser mais simples tornando-a mais complicada, com milhões de números e palavras imensas e impronunciáveis. Diga-me que minha dor não passa de radiações eletromagnéticas e que eu não existo, pelo amor de deus. Deixe-me concluir que sou um bando de células e lixo fisiológico e que minhas características individuais definem-se apenas por vinte e três pares de cromossomos e o caralho a quatro. Faça-me entender a porra da física quântica para que eu esqueça desse chão gelado que não me deixa em paz.

            Eu quero olhar para as esquinas e pensar geometria, num ângulo qualquer, no seno e no coseno. Entender química nos beijos e abraços do mundo. Quando eu pensar na dor que arde no estômago, eu quero lembrar apenas da merda da física quântica. Porque às vezes eu me odeio mais que matemática. Porque às vezes sou pior que matemática, física e química juntas. Porque agora eu sou, apenas, física quântica.

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Tuesday, August 15, 2006

Lua nova

            Ele me levou para dançar com toda a sua impaciência e mau humor, pediu uma bebida para esquecer os olhares alheios e aceitou fazer parte da minha alegria condicionada naquela noite de lua nova, cheia de desejos. Meus sapatos nunca usados, gastos de tanto esperar no armário, sustentaram meu corpo desesperado por uma vida de quatro horas. Fechei os olhos para tentar aliviar o peso angustiante de alma sufocada e dancei incessantemente quatro vidas de músicas maravilhosas e insuportáveis, como se fossem as últimas horas do mundo, como se fossem as últimas horas de todas as vidas. O pior lugar do mundo poderia ser ali que eu não me importaria. A pior música do mundo poderia tocar ali que eu também não me importaria. Tudo que eu não queria era voltar para aquele antro de solidão, repleto de amor e tédio. Tudo que eu não queria era abrir os olhos e lembrar que precisava voltar pra casa sem o resto do mundo.

            Quatro horas. Deixei minha alma dançando, juntei meus pedaços cansados e tirei os sapatos imundos de tanto pisar em mim mesma. Enfiei na goela uma bala de hortelã com formigas, que ganhei ao pagar a conta da vida, para disfarçar o gosto de ferrugem das palavras entaladas que não lhe disse. E um sorriso, para disfarçar o ódio que eu sinto de não lhe sentir mais aqui.

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Saturday, August 12, 2006

Estou cansada de você!

           Acho muito engraçadas essas pessoas que se dizem cansadas com a política. Estão exaustas de mentiras e corrupção e por isso, nesta eleição, não votarão em ninguém.

           É meu amigo, você realmente deve ter muitas razões para tamanho cansaço. Afinal, você conhece bem todos os nossos deputados e senadores e sabe o nome de cada um deles. Lembra-se, como se fosse ontem, em quem votou nas últimas eleições. Você assiste ao Jornal Nacional e acredita em tudo que o Willian Boner diz. Você não vê o Horário Eleitoral porque você não tem tempo, você é realmente muito ocupado. Mas eu sei que você conhece todos os candidatos muito bem, disso eu não tenho dúvidas. Aliás, você também não lê os prospectos de políticos que recebe na rua porque você não acredita em mais nada que eles dizem, são todos iguais. Mas se você nunca os leu, como pode ter tanta certeza disso?

            Você está cansado por inércia, porque está na moda ignorar a política e fechar os olhos para o que não te interessa. Realmente, você já tem problemas demais. Você senta sua bunda branca em frente à TV e assiste canal de fofoca, você lê o seu horóscopo e vomita frases feitas em cima de mim. O país é uma merda e é tudo culpa da política, você é uma merda, por culpa da política também, você nunca tem culpa de nada e eu tenho tanta pena de você. Você usa o mesmo discurso para tudo e se acha super inteligente. Você, com sua coragem ridícula, enche a boca pra dizer que nesta eleição não vai votar em ninguém, como se isso fosse a solução para todos os seus problemas fúteis e medíocres. Os políticos são todos um bando de filhos da puta e mentirosos, não merecem o seu valioso voto. Mas o que mais me revolta é que você é tão covarde e desinformado que não tem coragem de honrar suas próprias palavras. E são pessoas exatamente como você que acabam elegendo os mesmos filhos da puta que lhe cansam e lhe fazem odiar tanto a política.

            Ao invés de ficar reclamando, tome uma atitude e assuma suas obrigações, porque, infelizmente, o seu voto tem o mesmo valor que o meu.

            E eu, estou cansada de você.

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