Tuesday, September 26, 2006

Não pise no meu dedão!

            Eu realmente desejei que você caísse daquela pedra e morresse afogado. Eu realmente desejei que o seu mundo imaginário explodisse com tudo de você dentro. Você é podre e eu posso sentir o cheiro da sua carniça de longe, um cheiro enjoado que arde de tanto ódio, que chora de tanto arrependimento e me consome pelo desejo de vingança. Uma vontade cruel de comer você vivo e depois guardar os seus restos no meu congelador. Você poluiu a minha vida com esse papo egoísta e arrastado, como os vermes dos seus sapatos. Eu realmente desejei que aquele caminhão atropelasse a sua existência e lhe fizesse mais um chiclete esmagado no meu chão. Eu já havia esquecido da sua cara, mas você quis insistir, você fez questão de me lembrar de quanto eu o odeio. Você pisou no meu dedão de novo, logo na minha unha encravada. E agora me deu uma vontade, quase que incontrolável, de arrancar cada unha sua, até você implorar pelo meu perdão, até você desistir de uma vez por todas de aparecer nos meus sonhos com aquela maldita calça e seus chinelinhos encardidos.

            A vida é muito maior que a praia e as suas coisinhas, chega de querer controlar a vida, de medir os passos, de impor regras e limites para a felicidade. Aprenda a não ignorar algo maior que você mesmo, a não acreditar naquilo que você não entende. Faça-me o favor de não pisar no meu dedão de novo, eu não agüento essa gente que não presta atenção por onde pisa. Cuidado meu bem, não se amassa um sentimento como um papel inútil, não se guarda no bolso uma pessoa inteira, não se põe fogo num desejo explosivo.

            A minha vida segue, quase que sem vontade, quase que sem vida, sem fome, sem desejo, mas ela segue. E a cada passo, deixo pra trás um pedaço seu. A cada passo eu carrego menos dor, menos amor, menos tesão. A cada passo eu renasço um pouco e enterro você. Quem sabe um dia seremos amigos, daqueles que só se falam quando se encontram por acaso, mas, sinceramente, eu prefiro ser uma mulher que passa do outro lado da rua e nem reconhece aquele velho, meio cabisbaixo, que um dia foi tudo na vida dela, e agora não é nada além de um velho do outro lado da rua.

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Saturday, September 16, 2006

O crime perfeito

Eu te amo. - E toda sua maquiagem foi por água abaixo. - Não fala nada, me deixa sentir sua respiração.

Ele chegou e o mundo dela, cheio de motivos para não deixar de rodar, simplesmente congelou com aquela gargalhada escandalosa. Tudo do que ela fugia e se escondia em vão, estava naquele sorriso malicioso. Chegou com aquele mesmo jeito moleque, aquele mesmo cheiro que se disfarçava por trás do perfume, aquelas mesmas piadas sem graça, enquanto ela permanecia estatelada. Não, não adiantava dançar, não adiantava sorrir, não adiantava beber, tudo ficou ridiculamente patético. Ele chegou sozinho e a olhava, uma mistura de carinho e preocupação. Enquanto ela vomitava paixão e saudade, tentando desviar seus olhares para qualquer outra coisa que não fosse ele. Um passado nada distante que teimava em aparecer. Ela com aquele jeito delicado, aquele olhar de menina se escondendo atrás de uma franja, se confundindo com tantas bocas, sutiãs e cervejas, respirava medo, sussurrava insegurança e só queria sair correndo, se encolher toda naqueles braços que durante alguns anos a defenderam do lado sujo da vida. Assustada, ela se aproximou, pediu uma Coca e mais alma. Qualquer descuido virava oportunidade para falar com ele, e não existia namorado, não existia família, não existiam amigos.. eram só ele e ela. E como há muito tempo não acontecia, ela deixou existir o coração. Batendo meio falhado e sem sintonia com o momento, mas com força.

Um beijo, uma noite, uma vida. Não chora, meu bem, você é linda e boa demais para chorar por mim. Deixe-me ir embora, te levo num potinho. Eu te amo, mas, ironicamente, minha vida é mais segura sem você ao meu lado. Um beijo de despedida e um último olhar que vão estar guardados para sempre.

Assim ela foi embora, com a certeza de que para ele, aquele momento também foi inesquecível e especial no meio dos seus dias secos e falsos. Seguiu sem olhar para trás, implorando mais vida e menos dor, implorando passos para frente, sem saber que, infelizmente, aquele foi um dos maiores que ela já deu.

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Thursday, September 14, 2006

A uma praça de mim

             O reboque já estava posicionado para levar meu carro quando me ligaram: Corre! Corri, corri muito. Eu estava a uma rua e uma praça com um buraco enorme no meio, e bem no meio dele me estabaquei com tudo que tinha direito, e mais um pouquinho. Caí, quase chegando, eu caí no buraco, no meio da praça. Caí feio, na praça, no meio, ralei o queixo e o resto já semi-destruído. Tornei-me mais alguns cacos e cascalhos no meio no buraco, no meio da praça. Não, o carro não foi rebocado. Mas eu, de calça e coração rasgado, reboquei-me até o banheiro mais próximo, com a maior privada, na qual eu pudesse me enfiar com toda a merda que eu era.

            Tudo bem, diga-me que sou linda, inteligente e talentosa, ainda que sem joelho, e faça-me acreditar que nada disso é verdade, que o tombo serviu como aprendizado e que a merda já foi esquecida. Agora saia, feche bem a porta e suma. Vista-se com a roupa predileta e encontre-me no meio da praça. Estarei no buraco, ainda, entre cacos e meus pedaços esperando o reboque que não me leva, que não me deixa e segue indiferente.

            Agora entre, tranque-se bem, pense numa senha difícil, como o dia e mês do seu aniversário, e deixe-me descobrir tudo que já sabíamos. Será patético, como meu tombo no seu buraco. Sugira-me um terceiro significado para a sua dupla significância que reboco-me até o quarto, ou até o quinto dos meus infernos. Não interessa. Agora saia, estacione seu carro longe do meu, que numa hora vaga, bunda, peitos e laços se auto-destruirão e renascerão do buraco, a uma praça de mim.

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Wednesday, September 6, 2006

Mais que uma calça de chinelos

           Ele chegou com umas de suas bermudas e de longe me ofereceu um sorriso que guardei atrás da orelha desconfiada. Toda vez, apertada para dizer que o amava sem qualquer motivo, ele me aparecia com outro sorriso daquele que desconsertava minha pose auto-afirmada. Nas noites perdidas, que eu oferecia minha falta de amor aos rapazes em troca de dores morais, ele chegava de calça e chinelo e fazia todo o resto do mundo ficar invisível com seus olhos tarados de mel, embolando minhas certezas na confusão de mãos e cabelos sinceros. Sobravam-me apenas os restos de mim, iludidos por algo além do esperado, mas que esperei a vida toda, desde que eu brincava de boneca na casinha rosa. Era muito para tão pouco, puro e lindo para tanta imundice e vulgaridade. Eu estava amando a impossibilidade de amar quando comecei a amar você.
          
Mas a vida, a noite e os dias continuavam iguais, com o mesmo cheiro de cigarro no cabelo e os mesmos homens idiotas olhando para bundas e peitos. Eu era coisa demais para ser resumida ao que me julgavam, eu era amor demais para viver só de sexo. Eu estava cansada dos mesmos papos, dos mesmos cheiros, das mesmas vozes, dos mesmos erros, das mesmas gírias, dos mesmos lugares. Eu estava cansada de procurar você e lhe achar amando nomes diferentes do meu.
          
Atravesso a rua sozinha, entro num coração qualquer como uma refugiada e escrevo sentimentos para tentar aliviar a dor de tanto amor aprisionado. Porque eu não agüentava olhar para alguém que não tinha a sua cara, que não tinha o seu sorriso, e não sentir as mesmas coisas que eu sentia quando via você passar. Porque eu não agüentava fingir a sua insignificância enquanto nada mais fazia sentido com possibilidade da sua presença. Porque eu não sei lutar por nós dois depois de tanto acreditar no nosso esquecimento. Porque eu quero me curar desse amor imenso, tão grande que quase não faz sentido, tão grande que me deixa mínima, mas que não me deixa mais.
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Monday, September 4, 2006

Que se leva

                Preciso de uma bolsa nova. Mais discreta e um pouco menor talvez, que caiba apenas o necessário. A minha vermelha pode parecer nova, mas é grande demais e eu não consigo andar com a bolsa vazia. Ainda que o espaço vazio tenha lá a sua importância, mas parece estar pedindo o tempo todo para ser preenchido, e isso é um tormento diário. Então acabo levando comigo velharias que não me são mais úteis apenas por preguiça de jogar fora os lixos que um dia me alegraram por algum motivo, mas que hoje não passam de inutilidades pesadas.

            Uma bolsa nova, menos resistente, para ser trocada com mais freqüência, como aquela que eu nunca tive, mas sempre quis comprar. Que invejei das meninas alegres que trocam de bolsa todos os dias, de acordo com a cor do sapato. Que entram nas lojas de vitrines coloridas, compram uma vida nova por alguns reais dos pais e saem contentes, completamente novas.

            Uma vida nova, daquelas que vivemos nos comerciais de leite em pó e carregamos na memória como padrão de felicidade. Uma vida clara e leve, como a bolsa da vitrine, que é cara, mas é linda, e feita sob medida para durar até a próxima estação. Uma vida que se leva, que se deixa levar, de acordo com o que se suporta.

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Fragmentos

        

            Pega o estúpido que roubou a beleza das minhas vogais e assassinou meu domingo apaixonado, amordaçado pelo barulho dos talheres de prata. Mata o desgraçado que assiste televisão no volume acima do máximo e mastiga minha paciência com pipoca no cômodo incomodo abaixo do meu. Suma com essas angustiantes consoantes que não me dizem nada mas exaltam essa vontade apertada, diluída em sentimentos e Coca Cola Light, e me consomem da raiz às borboletas. Amarre-me num poste de idéias e luz e compre-me um sorvete com o teu gosto que de tão gelado arde, que adormeço tentando juntar damas, cavalos, quadriláteros, cores e recortes que nunca se encaixarão, mas fazem todo o sentido.

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