Não pise no meu dedão!
Eu realmente desejei que você caísse daquela pedra e morresse afogado. Eu realmente desejei que o seu mundo imaginário explodisse com tudo de você dentro. Você é podre e eu posso sentir o cheiro da sua carniça de longe, um cheiro enjoado que arde de tanto ódio, que chora de tanto arrependimento e me consome pelo desejo de vingança. Uma vontade cruel de comer você vivo e depois guardar os seus restos no meu congelador. Você poluiu a minha vida com esse papo egoísta e arrastado, como os vermes dos seus sapatos. Eu realmente desejei que aquele caminhão atropelasse a sua existência e lhe fizesse mais um chiclete esmagado no meu chão. Eu já havia esquecido da sua cara, mas você quis insistir, você fez questão de me lembrar de quanto eu o odeio. Você pisou no meu dedão de novo, logo na minha unha encravada. E agora me deu uma vontade, quase que incontrolável, de arrancar cada unha sua, até você implorar pelo meu perdão, até você desistir de uma vez por todas de aparecer nos meus sonhos com aquela maldita calça e seus chinelinhos encardidos.
A vida é muito maior que a praia e as suas coisinhas, chega de querer controlar a vida, de medir os passos, de impor regras e limites para a felicidade. Aprenda a não ignorar algo maior que você mesmo, a não acreditar naquilo que você não entende. Faça-me o favor de não pisar no meu dedão de novo, eu não agüento essa gente que não presta atenção por onde pisa. Cuidado meu bem, não se amassa um sentimento como um papel inútil, não se guarda no bolso uma pessoa inteira, não se põe fogo num desejo explosivo.
A minha vida segue, quase que sem vontade, quase que sem vida, sem fome, sem desejo, mas ela segue. E a cada passo, deixo pra trás um pedaço seu. A cada passo eu carrego menos dor, menos amor, menos tesão. A cada passo eu renasço um pouco e enterro você. Quem sabe um dia seremos amigos, daqueles que só se falam quando se encontram por acaso, mas, sinceramente, eu prefiro ser uma mulher que passa do outro lado da rua e nem reconhece aquele velho, meio cabisbaixo, que um dia foi tudo na vida dela, e agora não é nada além de um velho do outro lado da rua.