Tuesday, October 31, 2006

Derrubada

      E tudo se confunde de novo. O medo que lhe tornou distante, hoje me invade e arrasa o que eu reconstruí por longos dias de noites em claro. E mais uma vez você contradiz a única certeza que havia me deixado, a certeza do fim. O fim que custei aceitar, que me tirou o desejo, a fome, a vontade. O fim que me matou e me endureceu o coração. Que me roubou palavras, que me fez entender você como um passado bom para me poupar da dor de um fim sem começo. Mas por algum motivo você me derruba, toda vez que me encontra fixa por alicerces sólidos, ainda que frágeis. Toda vez que tento apoiar-me em ombros alheios para não ter que precisar dos seus. Você me derruba sempre. Do sétimo andar, indo embora, que lhe digo qualquer outra coisa para fugir do “eu te amo” estampado nos meus olhos. Você me derruba e apaga as luzes do mundo, sempre quando eu menos espero.

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Monday, October 23, 2006

Fotografias

Hoje o dia amanheceu cinza. Nuvens carregadas de mágoas, tristezas e histórias interrompidas cobriam o céu. E na cama, toda descabelada e atrasada, abaixei a cabeça, juntei minhas mãos e pedi ajuda para Deus, enquanto lágrimas rolavam no meu rosto. Ajuda para levantar da cama e seguir meu dia, ajuda para encher de vida o coração daquela gente presa no engarrafamento gigantesco lá embaixo, ajuda para acolher a quem não tem o que lhe confortar, ajuda a quem torna mesquinha a minha angústia, a quem não dorme por fome e não por desilusões amorosas.

Hoje eu acordei e enxerguei além do meu umbigo, da minha dor. Acordei e desejei o bem a quem precisa, a quem mora do meu lado, a quem não merece. Acreditei, enchi os pulmões de ar e, mesmo com todos os problemas, me senti uma pessoa melhor. Dirigi-me à sala, tomei meu café, li o jornal do dia e tomei um banho, que me lavou de todos os erros cometidos. Hoje eu tive esperança de um mundo melhor, tive fé nas pessoas e acreditei no amor ao próximo.

Aproximei-me da janela e fiquei um tempo olhando para aquele engarrafamento que tomava conta da minha ruazinha de paralelepípedo. Pensei nos dias que se passaram e nos que ainda estão por vir, pensei nele, pensei em Deus, e ao olhar para cima, lá estava ele olhando e brilhando novamente para mim, o Sol. Tímido mas radiante, caminhava empurrando toda a neblina e aquecendo minha alma.

Botei minha roupa, escovei os dentes e segui devagar, como se fotografasse cada instante, cada pessoa. O senhor de terno que quase se tacou na frente do 39 com medo de perdê-lo, a mulher que quase tropeçava no próprio pé de tanta pressa, a criança que era arrastada pela babá e carregava uma mochila maior que ela, e até o entregador da farmácia que sempre me lança a mesma cantada sem graça foram fotografados pela minha mente e enfeitaram o meu itinerário. Não tinha pressa de viver, o atraso não significava mais nada pra mim. E durante o intervalo do sinal fechado da Roberto Silveira, eu olhei para cima e agradeci por ser forte, sensível e ter um coração tão cheio de vida.

 

 

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Tuesday, October 17, 2006

O amor não sabe esperar

Não adianta pedir, meu bem. Desista. Não adianta jurar amor eterno, prometer beijos inacabáveis e fidelidade total. O amor não sabe esperar. Antes soubesse. Abriria aquela ferida que você deixou no meu peito, que demora a cicatrizar, e arrancaria meu coração sem pensar duas vezes, o dando outro abrigo, o freezer. Congelado e protegido de bactérias e fungos, envolto num saco ele ficaria por anos, esperando trocar de lugar com a sua covardia.

Mas é uma pena, amorzinho, o amor corre, ele tem pressa. E o meu está aqui, querendo encher de vida as palavras desse texto. Meu amor tem fome, e não é justo o alimentar com intervalos irregulares. Não é justo lhe dar como alimento alguém tão confuso e repleto de gerúndios. E ,surpreendentemente, eu cansei.

Cansei de trancar a porta e esconder a chave no lugar que só você conhece. Cansei de fugir de novas danças pensando naquele passo que a gente tinha ensaiado. Cansei de me abalar com sua falsa necessidade e logo após te ver na esquina aos pulinhos exalando amor e alegria. Cansei de sentar nessa merda de sofá, assistir uma comédia romântica e pensar em você. Cansei de dormir noites estreladas em camas espaçosas pensando no tempo em que dormia amassada dividindo uma de solteiro contigo.

Agora aspiro por novos batimentos cardíacos ao me tacar em novos peitorais. Vou sair por ai, acreditar em algumas mentiras, dizer mais ainda e trazer algum traseiro cansado para me fazer companhia na comédia romântica. Convidar o mesmo, ou outro, a entupir os meus pensamentos de declarações e estupidez, e exigir que ele não deixe nem um espacinho sequer para você.

E escrevendo esse texto eu imagino a sua cara de desprezo ao lê-lo, pensando: “que se foda, eu já tenho quem comer mesmo”. Tristeza. Tristeza admitir que tentei apertar tantas vezes o freio do amor por uma pessoa tão pequena., que me contentei tantas noites com suas palavras sem sinceridade e seus sentimentos vagos, que você, ao terminar de ler essa meleca, vai seguir a sua vida tranqüilamente…

Ironicamente, meu bem, meu amor não sabe esperar seus passos propositalmente lentos. Ele desistiu de atropelar a minha vida tentando conservar a sua. Desistiu de levar à escassez o meu estoque de lágrimas. Desistiu de acordar com manhãs de sol gritando solidão.

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Wednesday, October 11, 2006

Girassol

Por que você precisa chegar e bagunçar toda a minha vida? Assoprar meu coração, chacoalhar minha cabeça e berrar no meu ouvido a necessidade que eu tenho de você? Por que você precisa trazer a tona todas as lembranças que tento esconder entre tragos e goles? Eu que me vejo certas vezes tão grande, do seu lado me encolho toda e me sinto sufocada, pois você tira meu ar que de tão rarefeito já nem enche os meus pulmões.

Minha vida estava normal, pelo menos eu achava, e agora você chega e mais nada tem sentido. Minhas linhas transparentes se embaralham e palavras já não servem mais. Você abusa do poder de ser meu ponto fraco, e isso, por mais contraditório que pareça, me faz sentir viva.

Eu te vejo ali, inteiro, feliz, satisfeito, mas por algum motivo desconhecido algo lhe foi arrancado. Talvez a vontade de ao passar por uma floricultura trazer um girassol para casa, ou quem sabe o desejo de dançar aquela velha música novamente.. desejo que se esconde, pois seu novo par não acompanha o seu compasso.

E entre idas e vindas sua diversão é me fazer ter gastrite e taquicardia, enquanto a minha é murmurar desejos ocultos e fazer você sentir que ai, bem no seu peito esquerdo, alguma coisa teima em bater.

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Friday, October 6, 2006

Faz falta

           Você roubou as letras do meu teclado, meus lápis de cor, meus tons pastéis e o vermelho primário. Coloriu meu céu de amarelo ocre, meu sol de verde inglês, de nuvens carregadas azul turquesa. Inverteu a ordem da natureza a seu favor e construiu um refúgio subterrâneo caso seu mundo reinventado desabasse sobre sua cabeça oca. E sob nossa lua roxa, entredizeres e cabelos um pouco menos amarelos, perdoei-me suas falhas acertadas, ainda que sem pontos finais.

            E ainda posso imaginar seu sorriso e suas contradições, e posso até chorar ao lembrar que não há jeito de mudar as cores do céu, mas eu posso reinventar você nas minhas linhas, no branco das telas que ainda não colori. Eu posso desenhar flores no lugar de mares, farmácias ao invés de padarias, assim como você anoiteceu nossos dias nublados e precipitou a última gota de mim.
           
Estranha de tão forte, digerindo toda a sua ironia que lhe torna menos cada vez mais. De repente encontrei-me disforme de tão grande, ainda que de joelhos, implorando que ao menos devolva o tom rosado das minhas bochechas e o brilho dos meus olhos deixados no seu corredor estreito. È o que me falta. É o que me faz.

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