Sunday, December 24, 2006

Algum motivo

          Acho que perdi o pedacinho seu que eu carregava por algum motivo besta. E por algum motivo seu gosto me invade a boca, meu céu sem estrelas. Ninguém mais pra contar carneirinhos comigo quando, por algum motivo, eu não conseguir dormir, nem um ombro quentinho quando eu precisar chorar a falta tamanha que, por algum motivo, você me faz. Eu já chorei demais. É triste amar tanto, sofrer tanto e não sair de mãos dadas por esta porta sem chave. Mais triste ainda é sentir que o filme está acabando, eles ainda não se entenderam e que o final feliz estragaria o fim.
          Mas por algum motivo você fica bem, e sai por aí amando outros sorrisos, gozando sua vida fútil entre mulheres e música alta. E, por algum motivo, eu também fiquei feliz. É lindo encontrar quatro chamadas suas não atendidas, ainda que sejam para me xingar, porque, por algum motivo, você se importou comigo. É mais lindo ainda o aperto no peito e a garganta seca que só você me faz sentir, a saudade que só você me dá e a vontade de gritar da janela no meio da madrugada.
          Você não está aqui, por algum motivo. E por algum motivo, não sai daqui em momento algum.

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Friday, December 15, 2006

O parto

Nove meses. Nove meses fugindo daquela caixa. Nove meses alimentando um feto que não existia no meu ventre. Nove meses tentando achar um nome para preencher minha mente. Nove meses tentando me saciar com Ninguém. Duzentos e setenta dias convivendo com a mentira, seis mil quatrocentos e oitenta horas tentando acreditar nelas e me conformar, trezentas e sessenta cervejas para substituir a sua ausência.

Durante todo esse tempo eu fugi, me escondi, tive medo. Mas hoje eu senti que estava preparada. Peguei a caixa, aquela que guardei todas as palavras e momentos que trocamos, e abri. Tinha chegado a hora de encarar tudo aquilo e fazer uma faxina no meu peito e na minha mente. Comecei a ver as fotos, os sorrisos, os olhares.. Ah! Eu era tão pequena, tão fiel, tão verdadeira, que agora só de lembrar meus olhos já enchem d`água. Depois fui para as cartas,  tantas promessas, tantas brigas desnecessárias, ciúmes.. pensei até em roubar a mais bonita e botar na minha carteira, mas.. Calma, Júlia, você está aqui para fazer a faxina, jogar o que já passou na lembrança e deixá-lo descansar em paz num túmulo lotado de girassóis e sem direito a visitas. Após ler as cartas, funguei com muita vontade aquelas velas que você me deu, e em seguida me veio um aperto no peito. Guardei a caixa no mesmo lugar, fotos vivas passaram pelo meu pensamento, mas nada que me impedisse de continuar o dia. Faxina feita com sucesso.

Não se engane, eu não te amo mais, só sinto falta de querer um alguém, como você ou como qualquer outro, para me balançar e me deixar regredir uns 10 anos, porque agora eu já percebi a firmeza que tenho nas pernas e só sei balançar o meu balanço velho, capengo e descascado no meu ritmo

E foi assim, caminhando contra você que conheci a Solidão, e nós duas nos demos bem. Agora somos dependentes. Só ainda não descobri se sou eu que não a largo, ou se é ela que não me deixa ir.

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Sunday, December 10, 2006

Flores e desamores

               E os olhos se encheram de lágrima, de medos e traumas. Na varanda, passos e vozes a fazem abrir os olhos e enxergar um feixe de luz pela cortina entreaberta. Um rosto estranho então se fez nítido e sorriu com dentes perfeitos. Ele era lindo, mas ele, infelizmente, não era ele.

            Apagou as luzes e a fez esquecer do dono da sua alma. O desinteresse inicial tornou-se uma fuga, uma esquina a mais, uma rua desconhecida sem saída, sem sinal. O pensamento se fez distante e às vezes se perdia por mais de dois ou três segundos. E cada acaso em que suas mãos se encontravam, a lembrava que, apesar da mão grande e pesada, ele não era ele.

            Ela ouve música eletrônica num quarto em silêncio, como quem se esforça para enxergar o que existe além do horizonte azul e rosa. Procura a curva das linhas paralelas de corpos sem desejo, como quem anda solitária por ruas escuras e sem esquinas. Ela se suja e se lava de suor e nojo e desvia o olhar para o chão, como quem procura uma saída onde não há saída. E se despede com desprezo e pena das flores que não estavam mais lá, mas que ainda exalavam vontade e desejo.

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