Tuesday, January 30, 2007

Do outro lado do mundo

           Disfarça e sai. Some e vive. Observa-me caminhar para longe de ti por estas ruas de solidão. Atravessa, muda de lado, caminha. Não olha para trás. Deixa-me lembrar de ti sem mágoa, sem voz. Que tua imagem permanece, eternamente. Eu fico com tuas danças, tuas músicas, teu sorriso. Fico tua, para sempre. Beija minha alma com força e diz que me ama de madrugada, por pensamento. Que te respondo. Do outro lado do mundo. Assim não cansa, não mente. Se sente, e só.

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Quase Tudo

         De tuas linhas nasceu a paixão pelos versos, pelas páginas amareladas dos livros antigos que ocupam a parte mais alta da estante. Durante anos ocupei-me apenas de olhá-los, vez ou outra me equilibrava na ponta dos pés para ver mais de perto os títulos na vertical. Tudo que eu era cabia em duas ou três frases de palavras duvidosas. Cadernos engavetados, revistas inúteis, nenhuma literatura. Talvez tudo fosse nada, ou quase isso.
        
Naquela tarde, tudo não era mais belo que tal frase tola que escreveras na folha de rosto. De um fim qualquer, aquele dia passou a ter dois começos. Um cinza e calado, noutro uma nota só e muitas cores.
         Fui dormir depois das três. O livro arremessado no chão, no vão entre teus lados opostos, olhava-me entreaberto na página cento e noventa. Não podia acreditar que tal publicação barata custava-me tanto a dormir. Talvez por tentar preencher o silêncio de nós com tuas escritas e calar o rumor dos teus passos indo de encontro aos meus. Uma mulher como eu não podia dar chance à maior e mais linda mentira do mundo. Talvez tudo seja loucura, ou quase tudo.

 

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Saturday, January 6, 2007

Lábios Mudos

            A primeira vez em que disse Eu te amo foi um Eu te amo quieto, tímido e incerto. Na segunda foi mais claro, não menos incerto. Logo uns Eu te amos foram ditos mais alegres, outros mais profundos, vez ou outra com um tom melancólico.

            Gostou tanto do Eu te amo que já não mais temia em dizê-lo. Substituía despedidas, discussões ou longas conversas pela simples frase, e já tinha tudo resolvido. Quantas vezes fossem necessárias, economizava saliva, palavras e emoção.

            O Eu te amo foi ganhando espaço, perdendo sentido. Tornou-se tolo, menor, desleal. Era só um emaranhado de palavras que diziam ser bonito. Vinha sem brilho, sem gosto, sem vontade. Era tanto, agora tão pouco.

            Chegou o momento em que precisava mudar. Quis dizer Não te amo, o Eu te amo não deixou. Egoísta e mimado, não podia perder seu lugar. Tentou novamente, ele se pôs no meio. Repetidas vezes disse para si mesma “Não te amo, Não te amo, Não te amo”. Dos lábios só saíam Eu te amo.

            Com o tempo e a preguiça, acabou cedendo aos seus caprichos. Dizia-o pela insistência. Mal podia detê-lo, logo fugia, alto e esbaforido, de seus lábios mudos. Tomou seu semblante, seu corpo, sua paz. E ela, impotente frente a um Eu te amo colossal, tornou-se prisioneira de um amor desalmado.   

   

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Thursday, January 4, 2007

m-Eu

É difícil ser Eu.

Ele cada vez consome menos sua pobre alma, que às vezes dá uma escapulida porque não agüenta mais ser economizada. Dói demais desperdiçar tantos dias e se poupar de fazer parte de tantas histórias.

Eu se alimenta de vidas, mas só a carne, porque a alma engorda e Eu não quer deixar de ser vazio. Ele vai ao cinema sozinho, ele não sabe andar de mãos dadas, ele se esqueceu do que é ter azia psicológica.

Pobre Eu. Tão pobre que finge estar feliz, finge não sentir dor, finge não enxergar o que acontece ao seu redor. Eu planeja seu assassinato, mas fracassa, pois para isso precisaria de um cúmplice.

Eu se confunde com Nada. E chora, porque tudo isso faz muito sentido.

Eu decidiu suicidar-se num abraço de asfixiar, mas não.. nós sabemos, volta e meia Eu está de volta. Pois maior que o desejo de sua morte, é o buraco infinito que ele cava no m-Eu.

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