Lábios Mudos
A primeira vez em que disse Eu te amo foi um Eu te amo quieto, tímido e incerto. Na segunda foi mais claro, não menos incerto. Logo uns Eu te amos foram ditos mais alegres, outros mais profundos, vez ou outra com um tom melancólico.
Gostou tanto do Eu te amo que já não mais temia em dizê-lo. Substituía despedidas, discussões ou longas conversas pela simples frase, e já tinha tudo resolvido. Quantas vezes fossem necessárias, economizava saliva, palavras e emoção.
O Eu te amo foi ganhando espaço, perdendo sentido. Tornou-se tolo, menor, desleal. Era só um emaranhado de palavras que diziam ser bonito. Vinha sem brilho, sem gosto, sem vontade. Era tanto, agora tão pouco.
Chegou o momento em que precisava mudar. Quis dizer Não te amo, o Eu te amo não deixou. Egoísta e mimado, não podia perder seu lugar. Tentou novamente, ele se pôs no meio. Repetidas vezes disse para si mesma “Não te amo, Não te amo, Não te amo”. Dos lábios só saíam Eu te amo.
Com o tempo e a preguiça, acabou cedendo aos seus caprichos. Dizia-o pela insistência. Mal podia detê-lo, logo fugia, alto e esbaforido, de seus lábios mudos. Tomou seu semblante, seu corpo, sua paz. E ela, impotente frente a um Eu te amo colossal, tornou-se prisioneira de um amor desalmado.