Tuesday, September 4, 2007

Epitáfio

Três de setembro de dois mil e dezessete. Dez anos após minha morte.

Lembro-me como se fosse hoje daquele meu último almoço. No intervalo de vinte minutos, oito meninas compartilhando a mesma mesa. Quando cheguei, atrasada como sempre, seis já terminavam e se levantavam, me juntei às outras duas restantes. Comecei a comer meu macarrão gratinado sem vontade, já que nele continha presunto quente. Na primeira garfada desgostosa ouvi a voz daquela menina, de tão suave e serena me chamou atenção e percebi que seus olhos se direcionavam a mim, como se me chamassem para ouvi-la. Assim o fiz. Logo que cheguei mais para perto, a outra de voz estridente havia começado a falar. O assunto pouco me importou, falavam da super-ultra-mega importância que seus respectivos namorados tinham em suas vidas. Ela relatava sua sexta-feira internada no hospital, devido uma briga com o namorado. Aquela história tirava ainda mais o meu apetite. Desviei minha atenção para o mural, mas logo depois me voltei para o papo. Era a voz suave, ela misteriosamente me instigava. Foi então quando me contou sobre a sua vida, como se nos conhecêssemos há anos. Primeiro ela me explicou o porquê de seu namorado ser seu refúgio. Seu pai estava em estado terminal, sua mãe em depressão, e eles tiveram que se mudar esse ano, deixando para trás todas as pessoas que poderiam contar. Agora eram eles três e ela como base desse triângulo, tentando ser forte para não desestruturar o pai alcoólatra e a mãe, que durante anos sofreu adultério e foi espancada muitas vezes. Sem pensar duas vezes, a voz suave prosseguiu me contando da sua conclusão no curso de enfermagem, cuidando assim do seu pai, e antes dele já havia cuidado do seu tio, que há onze anos a abusou sexualmente. E por isso, o namorado era tão essencial em sua vida. Com ele ela podia chorar toda a dor de cada machucado que a vida havia feito, podia gritar a injustiça que era ter que aguentar todo aquele sofrimento em silêncio.

Aí eu percebi. Aquela menina dividia a sala todos os dias comigo, sentava muitas vezes ao meu lado, tinha a minha idade e participava de papos acadêmicos em comum sempre com um sorriso no rosto, mesmo que cansado. Enquanto eu, a cada cicatrização de alguma ferida, fazia questão de pegar a gilete e a arrancar, deixando a dor sempre em exposição. Dor? Não, o que eu sentia não merecia esse nome. Como eu fui pequena, fútil, egoísta. Perdi tantos dias da minha vida trancada para o mundo, achando que eu era o ser mais infeliz do planeta. A partir daí eu senti minha pressão baixar aos poucos, minha visão ficar turva e meus sentidos me largando. Senti tontura, muita tontura, mas era tranquilizante. Me sentia leve também. E agora eu estou aqui, morta. Querendo mudar tanta coisa, querendo ter sido mais eu. Torna-te quem tú és, já dizia Nietzsche naquele livro que eu tanto gostava. Devia tê-lo levado mais ao pé da letra. O futuro do pretérito toma conta dos meus lábios, mas nesse caso a condição é ter novamente a minha vida. Já está tarde, o vento leva as flores que deixaram para mim hoje. Minha mãe como sempre não me larga nunca, nem em pensamento. Queria ter sido uma filha melhor.. Encerro meus pensamentos, todo ano é sempre cansativo. É sempre vazio.

Posted by ESCLEROSES at 04:36:58 | Permalink | No Comments »