Tuesday, June 12, 2007

Para sempre

     Você chegou com um saquinho de amendoim e sentou-se do meu lado direito, pôs a mão sobre a minha e por pouco mais de dois segundos nos olhamos, bem no fundo dos olhos. Mesmo com toda aquela escuridão eu desabrochava como uma flor ao se alimentar do sol no meio do cinema da uff. Era o alívio da paixão espremida e a dor de alguém querendo entrar ali, no espaço que você deixou, eu querendo fugir e ao mesmo tempo grudar no seu peito pra ouvir mais de perto a sua respiração, por mais vinte minutos da eternidade que nos restava.
     Depois disso, eu sempre procurei o seu tênis velho em cima das poltronas dos cinemas e sempre deixei o meu lado direito vazio caso você chegasse de repente. E então já era tarde demais, cada pouco ao seu lado era sempre a espera do grande momento, de quando a gente se beija e tudo em volta desaparece. Eu nunca mais poderia ser feliz antes do nosso final feliz. Logo eu, que nunca gostei dos finais felizes, desejo com todas as minhas forças ser feliz para sempre com você.

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Thursday, May 10, 2007

A carta

Talvez essa não seja a melhor e mais emocionante carta escrita, mas certamente é a mais sincera. Talvez ela não te arranque suspiros, mas será que realmente algum dia eu já os arranquei de você? É, essa carta é pra você! E entrego-lhe assim, sem formato, para igualá-la ao que você sempre sentiu por mim. Eu já não vou mais tomar essas linhas com declarações em vão ou promessas de mão única, decidi poupar-me. Muito menos falarei aqui sobre os seus erros e o que deve mudar, pois estes te surtem o mesmo efeito do grito da sua mãe ao mandar-te tomar banho quando era criança. É, eu tô aqui pra dizer Adeus. Um Adeus seco e magoado, marcado por tantas tentativas frustradas e tantas esperanças de um futuro bom. Jamais me permitirei chegar ao ridículo, não derramarei mais uma lágrima sequer, não deixarei nenhuma lembrança tomar conta dos meus pensamentos. Despeço-me agora do sempre que nunca existiu. E para não sentir dor vou seguir sem olhar para trás, e jurar  acreditar que nós não fomos feitos um para o outro. Vou continuar buscando saídas e respostas, pois toda essa confusão ainda é melhor do que a dolorida plenitude da verdade. Vou acreditar nas minhas mentiras, com a mesma facilidade da qual acreditei nas suas.

Para não sentir dor, Adeus.


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Gelado

       Não falemos de amor com rochas de gelo. Que derretam no frio, no imaginar de um dia de sol desperdiçado. Pena é que tenhas de demorar tanto aí, tanto tempo, no tempo que passou. Mas, se alguma esperança pode haver, que permaneça no frio, sob os cuidados do vento, gelado, como sempre, receoso, permaneceu. Que são os minutos, os dias e os meses dos anos que amei em silêncio, como rocha de gelo? São nada além de tardes solitárias dentro de mim. Mas, como o inverno, é certo que um dia acabe, ainda que volte mais forte no ano seguinte. E sempre volta, por nunca deixá-lo ir completamente.

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Wednesday, April 11, 2007

De agora em diante

       A verdade é que ela não pedia para as coisas se tornarem mais belas, mas o horizonte vai ficando cada vez mais largo e laranja no fim de todas as tardes de agora em diante. Não admira que a presença de tal sujeito modificaria a beleza do mundo para aqueles os olhos sérios e quase cegos. E talvez nada mais volte a ser como antes, ainda que essa beleza, ao mesmo tempo em que alegra a alma, também aperta e machuca o peito. É uma beleza dolorida, que de tão bela quase não cabe no próprio sentido da palavra.
       E quando o tormento se parece extinto, vêm as noites e os olhos se cansam. O pensamento percorre os espaços vazios entre uma piscada e outra…Mas logo a manhã se rompe completamente e os olhos se abrem. Parecem acordar de um sonho. Que resta à maior parte do dia são as coisas do mundo, que ficaram mais belas de agora em diante.

 

   

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Thursday, March 22, 2007

O buraco

Venha aqui, estufe o peito e me deixe ver o que te habita. Deixe-me ver o pedacinho que me falta, eu preciso saber se ele está sendo bem cuidado. Não o deixe perdido nesse emaranhado de amores baratos, secos e temidos. Cuide, guarde, prenda. Eu o deixei ai, pra você, só pra você, e quero ter certeza de que não foi em vão. Venha aqui, sente do meu lado e me deixe sentir o meu pedacinho em você. Pois longe ou perto, ele me faz falta. Divida comigo suas linhas tortas, porque as minhas já acabaram e eu não quero chegar ao fim. Venha aqui, estale as minhas costas e me faça acreditar que no campo de possibilidades a gente se abraça. Cole seu peito no meu e me tire o fôlego com a nossa história inabalável e inconstante. Segure na minha mão e me puxe para continuar a viver uma vida no meio das nossas. Olhe para o lado e tenha a certeza de que “é ela!”. Passe a primeira, acelere e não me deixe jamais olhar pelo retrovisor.
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Friday, February 23, 2007

Pela janela

Letra por letra, palavra por palavra. Faça com que viva em mim cada segundo, cada suspiro. Faz com que sinta em mim a dor de cada olhar perdido, cada abraço não dado. Apaga o que foi dito, apaga o que foi lido, mas não apaga o que têm sido, sentido. O dois, nós dois. Em vão ou ao chão. Se encosta em mim e sente, tente, invente. Qualquer coisa. Mente que não sente, que não lembra. Mas tenta a cada instante durante o sinal vermelho da loucura da vida dizer em um olhar o que importa, e só. Basta olhar, basta viver, basta pegar na sua mão e não ter vontade de largar. Basta você e eu, lado a lado ou a quilômetros de distância. Não, não perca tempo. Realidade para quê? Vamos respirar nossa paixão. Vamos viver aqui, nesse quarto, sermos nós como ninguém nunca viu, ser você. Esquecer da porta, esquecer do trânsito lá fora ou de qualquer outra coisa que nos traga ao real. Me abraça e me guarda. Me respira, nada é mais sincero quando estamos juntos. Não importa se é tudo sonho. Basta ser eu, acordar, olhar pela janela e te ver voltando do mar, com o sorriso do homem mais feliz do mundo, a paisagem mais bonita dos últimos tempos. E que seja assim no sempre. Pra sempre.
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Tuesday, January 30, 2007

Do outro lado do mundo

           Disfarça e sai. Some e vive. Observa-me caminhar para longe de ti por estas ruas de solidão. Atravessa, muda de lado, caminha. Não olha para trás. Deixa-me lembrar de ti sem mágoa, sem voz. Que tua imagem permanece, eternamente. Eu fico com tuas danças, tuas músicas, teu sorriso. Fico tua, para sempre. Beija minha alma com força e diz que me ama de madrugada, por pensamento. Que te respondo. Do outro lado do mundo. Assim não cansa, não mente. Se sente, e só.

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Quase Tudo

         De tuas linhas nasceu a paixão pelos versos, pelas páginas amareladas dos livros antigos que ocupam a parte mais alta da estante. Durante anos ocupei-me apenas de olhá-los, vez ou outra me equilibrava na ponta dos pés para ver mais de perto os títulos na vertical. Tudo que eu era cabia em duas ou três frases de palavras duvidosas. Cadernos engavetados, revistas inúteis, nenhuma literatura. Talvez tudo fosse nada, ou quase isso.
        
Naquela tarde, tudo não era mais belo que tal frase tola que escreveras na folha de rosto. De um fim qualquer, aquele dia passou a ter dois começos. Um cinza e calado, noutro uma nota só e muitas cores.
         Fui dormir depois das três. O livro arremessado no chão, no vão entre teus lados opostos, olhava-me entreaberto na página cento e noventa. Não podia acreditar que tal publicação barata custava-me tanto a dormir. Talvez por tentar preencher o silêncio de nós com tuas escritas e calar o rumor dos teus passos indo de encontro aos meus. Uma mulher como eu não podia dar chance à maior e mais linda mentira do mundo. Talvez tudo seja loucura, ou quase tudo.

 

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Saturday, January 6, 2007

Lábios Mudos

            A primeira vez em que disse Eu te amo foi um Eu te amo quieto, tímido e incerto. Na segunda foi mais claro, não menos incerto. Logo uns Eu te amos foram ditos mais alegres, outros mais profundos, vez ou outra com um tom melancólico.

            Gostou tanto do Eu te amo que já não mais temia em dizê-lo. Substituía despedidas, discussões ou longas conversas pela simples frase, e já tinha tudo resolvido. Quantas vezes fossem necessárias, economizava saliva, palavras e emoção.

            O Eu te amo foi ganhando espaço, perdendo sentido. Tornou-se tolo, menor, desleal. Era só um emaranhado de palavras que diziam ser bonito. Vinha sem brilho, sem gosto, sem vontade. Era tanto, agora tão pouco.

            Chegou o momento em que precisava mudar. Quis dizer Não te amo, o Eu te amo não deixou. Egoísta e mimado, não podia perder seu lugar. Tentou novamente, ele se pôs no meio. Repetidas vezes disse para si mesma “Não te amo, Não te amo, Não te amo”. Dos lábios só saíam Eu te amo.

            Com o tempo e a preguiça, acabou cedendo aos seus caprichos. Dizia-o pela insistência. Mal podia detê-lo, logo fugia, alto e esbaforido, de seus lábios mudos. Tomou seu semblante, seu corpo, sua paz. E ela, impotente frente a um Eu te amo colossal, tornou-se prisioneira de um amor desalmado.   

   

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Thursday, January 4, 2007

m-Eu

É difícil ser Eu.

Ele cada vez consome menos sua pobre alma, que às vezes dá uma escapulida porque não agüenta mais ser economizada. Dói demais desperdiçar tantos dias e se poupar de fazer parte de tantas histórias.

Eu se alimenta de vidas, mas só a carne, porque a alma engorda e Eu não quer deixar de ser vazio. Ele vai ao cinema sozinho, ele não sabe andar de mãos dadas, ele se esqueceu do que é ter azia psicológica.

Pobre Eu. Tão pobre que finge estar feliz, finge não sentir dor, finge não enxergar o que acontece ao seu redor. Eu planeja seu assassinato, mas fracassa, pois para isso precisaria de um cúmplice.

Eu se confunde com Nada. E chora, porque tudo isso faz muito sentido.

Eu decidiu suicidar-se num abraço de asfixiar, mas não.. nós sabemos, volta e meia Eu está de volta. Pois maior que o desejo de sua morte, é o buraco infinito que ele cava no m-Eu.

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